
Pegar um modelo consagrado e estabelecido no mercado, dar aquela remodelada profunda para vendê-lo como um carro novo é um recurso antigo da indústria. Que atire a primeira biela a montadora que jamais fez isso. A mais recente a adotar tal estratégia foi a Nissan, com o Kait. E o trabalho ficou bom.
A fabricante japonesa pegou o primeiro Kicks, que foi vendido até o fim de 2025 com o sobrenome Play para conviver com a segunda geração do SUV compacto. Aproveitou a plataforma, partes da carroceria e a mecânica para ter um representante competitivo na categoria de SUVs de entrada.
Desta forma, o Nissan Kait se destaca em relação aos rivais em vários quesitos, a começar pelo tamanho e espaço interno. Ao mesmo tempo em que usa um conjunto mecânico e uma arquitetura já veteranos.
Automotive Business avaliou por 10 dias o Nissan Kait em sua versão topo de linha Exclusive e vamos destacar agora 7 fatos importantes sobre o “novo” SUV da marca japonesa produzido em Resende (RJ). De cara, um bom candidato ao Prêmio Lançamento do Ano 2027 da AB.
1. Nissan Kait é um Kicks…

Se você olhar o Kait de frente ou de traseira, vai apostar em qualquer bet da vida que está diante de um SUV novo da Nissan. Isso porque a montadora fez um belo trabalho para entregar um desenho bastante moderno e diferente ao modelo.
Peças como o capô elevado com dois vincos proeminentes, os faróis em forma de asa que acompanham os ressaltos desse mesmo capô^, para-choques com entradas de ar horizontais e luzes de condução diurna em filetes – presentes só na Exclusive – emprestam um misto de robustez e arrojo ao crossover.
Na traseira, a tampa do porta-malas é diferente, traz o nome Kait em letras garrafais, só que o vidro traseiro já denuncia certa semelhança com o velho Kicks. As lanternas, por sua vez, adotam estilo mais retilíneo justamente para tentar se afastar do modelo de origem.
Mas, de perfil, não existe milagre. Portas, para-lamas, vidros e teto, além das colunas dianteira e central, são iguais às do falecido Kicks.
2. …na cabine…

Por dentro, o painel também remete ao do Kicks, mas a marca tascou saídas de ar retangulares no lugar das peças circulares. A central multimídia do Nissan Kait Exclusive usa tela de 9” – as versões de entrada vêm com display de 8” -, mas continua com aquele problema crônico nas marcas japonesas.
A interface deixa a desejar e as respostas aos comandos são lentas. Até mesmo os sons emitidos pelo equipamento parecem datados. O sistema de câmera 360 é sempre bem-vindo nas manobras, porém a resolução da câmera no monitor é bem ruim.
O quadro de instrumentos parece não combinar os lados. Uma tela vertical de 7” à esquerda pode ser configurada com informações do computador de bordo ou do som, por exemplo. Já o velocímetro, também digital, fica à direita.
3 – … e herda seu conforto

Nas semelhanças com o Kicks, tem o lado bom. O Nissan Kait, por exemplo, herda o mesmo conforto a bordo do antecessor. A posição de dirigir agrada, os bancos da frente oferecem dose certa de conforto e motorista e carona usufruem de bom espaço para pernas e ombros.
A visibilidade é boa na maior parte do tempo. Sabe o que incomoda? Aqueles vincos generosos sobre o capô. Pois é, mesmo com o ajuste do banco bastante elevado, as saliências da carroceria atrapalham na visualização das pontas do carro.
No banco traseiro, o entre-eixos de 2,62 metros (o maior da categoria de SUVs de entrada) e o teto elevado recebem bem até passageiros mais altos. Mas a largura não é tão generosa assim e um terceiro ocupante adulto na parte central do assento vai passar apertos.
O porta-malas de 432 litros é um dos maiores da categoria de SUVs de entrada. Na prática acomoda bem uma mala grande e mais duas médias, além de pequenos volumes.
A suspensão cumpre bem o papel. O Kait mantém o jogo por eixo de torção atrás, porém, segundo a Nissan, recebeu um novo eixo traseiro, além de amortecedores e molas diferentes em relação ao Kicks.
A calibragem da suspensão absorve bem tais desníveis e os buracos nossos de cada dia. Um comportamento elogiável, apesar do bom vão livre de 20 cm, o que ajuda o carro a vencer rampas de garagem e quebra-molas sem sofrimentos.
O acabamento segue a lógica do segmento e do baixo custo do projeto. Muito plástico reveza com superfícies com revestimentos mais suaves ao toque e encaixes corretos. Já o isolamento acústico funciona bem na cidade e em velocidades de cruzeiro, mas quando se exige mais do pedal do acelerador, o ruído do conjunto mecânico se faz presente na cabine.
4 – Desempenho tradicional (e racional)

Isso porque o Nissan Kait se vale da mesma mecânica do velho Kicks. Ou seja, carrega o manjado motor 1.6 16V aspirado com comando variável na admissão e no escape (também feito em Resende), aliado ao também conhecido câmbio CVT fornecido pela Aisin.
São 113 cv com etanol e 110 cv, com gasolina, para proporcionar acelerações graduais na cadência pacata da caixa continuamente variável. O 0 a 100 km/h do Kait, conforme dados fornecidos pela Nissan, fica em 11,4 segundos.
Só que aqui o trato do CVT é raiz. Quando se pisa forte para uma retomada, a rotação sobe, o câmbio segura os giros e o motor “berra” até embalar. Importante lembrar que é um propulsor aspirado e que o torque de 14,9 kgfm só aparece em sua plenitude a 4 mil rpm.
Mas por que a Nissan não colocou o mesmo motor turbo do novo Kicks no Kait? Afinal, a maioria dos rivais do SUV têm opção de conjunto turbinado. A fabricante vai dizer que é por razões mercadológicas.
Realmente, há um público, especialmente fã de marcas japonesas, que não gosta e não quer (ou mesmo desconfia do) turbo. Mas a principal razão é fato de que o 1.0 turbo aplicado no novo Kicks encareceria muito o Kait e o deixaria ainda mais caro perante os adversários do segmento.
E vamos combinar que, mesmo com um conjunto mecânico datado, o Nissan Kait entrega desempenho suficiente e eficiente para cidade. Pelo ciclo PBEV/Inmetro, as médias urbanas ficam em 7,8 km/l (etanol) e 11,3 km/l (gasolina) – durante a avaliação majoritariamente urbana, o computador de bordo apontou média de 12,8 km/l, com mais gasolina no tanque.
Na estrada, ainda permite uma viagem tranquila, sem arroubos de esportividade, contudo bastante confortável. No ciclo rodoviário, as médias do PBEV ficam em 9,4 km/l (etanol) e 13,7 km/l (gasolina).
Na parte da dinâmica, o carro usa a plataforma V (que chegou aqui em 2011, com o March) e consegue equilibrar bem o conforto com dinâmica satisfatória. A carroceria rola pouco nas curvas e a direção com assistência elétrica só pede correções acima de 100 km/h – isso foi visto em rodovias com velocidade máxima permitida de 110 km/h.
Surpreende positivamente a frenagem do Nissan Kait. Apesar da altura de 1,61 metro e do vão livre do solo, o SUV mergulha pouco e fica na mão do motorista. Vale ressaltar que ele usa freios a discos ventilados na dianteira, mas tambores na traseira.
5 – Equipamentos

Na segurança, toda a linha Kait sai de fábrica com seis airbags, assistente à partida em rampas, sensor de ré e sistema de monitoramento de pressão dos pneus. Além de multimídia Nissan Connect com tela de 8”, portas USB (tipos A e C), Bluetooth e conexão para Apple CarPlay e Android Auto (com fio).
Ar-condicionado, trio elétrico chave presencial, volante com regulagens de altura e de profundidade, sensor crepuscular, porta-malas com iluminação, faróis full LED, tomada USB tipo C traseira e tag do Sem Parar também são itens de série desde a opção de entrada Active.
A Advance Plus (R$ 149,890) e a topo de linha Exclusive (R$ 152.990) avaliada se destacam no estilo pelas maçanetas internas cromadas e rodas estilo “blades” com aros de 17” e pneus 205/55 R17. Também agregam retrovisor eletrocrômico, alerta de mudança de faixa e carregador de celular por indução.
Ainda recebem vidros dianteiros e traseiros elétricos com sistema “um toque” e antiesmagamento, tomada USB-C extra para o banco traseiro e a multimídia com tela de 9”, porta USB-A e espelhamento de celular sem necessidade de cabeamento.
A mais cara é a única a ter itens mais robustos de assistência à condução, como controle de cruzeiro adaptativo, alertas de ponto cego e de tráfego cruzado traseiro, detector de fadiga e câmera 360° com detector de objetos em movimento. Ar automático, painel, volante e bancos com revestimento premium, além de carpete, também são “exclusivos” da Exclusive.
6 – Posicionamento e vendas

O Nissan Kait é vendido em seis versões. Confira os preços:
- Nissan Kait Active CVT: R$ 117.990
- Nissan Kait Sense CVT: R$ 136.990
- Nissan Kait Sense Plus CVT: R$ 139.590
- Nissan Kait Advance CVT: R$ 146.990
- Nissan Kait Advance Plus CVT: R$ 149.890
- Nissan Kait Exclusive CVT: R$ 152.990
Com este posicionamento, o SUV de entrada da marca japonesa briga com versões intermediárias e topo de linha de modelos como Volkswagen Tera (o líder do segmento), Fiat Pulse e Renault Kardian. Ainda vêm por aí o Chevrolet Sonic e o Jeep Avenger.
Lançado em dezembro de 2025, o SUV acumula 6.400 emplacamentos no primeiro trimestre de 2026. Só em março, contudo, foram 4.462 licenciamentos e o Kait passou a ser o Nissan mais vendido do país.
A Exclusive respondeu por 15,2% das vendas, superando a opção de entrada Active (quase 12%). O grosso se concentra nas opções Sense e Advance, que somam 73% dos emplacamentos da linha.
7 – Manutenção e pós-venda

O Kait segue a garantia de três anos dos SUVs da Nissan. As cinco primeiras revisões com preço fixo (a cada 10 mil km ou 1 ano) cobram valores competitivos dentro da categoria.
- 10.000 km: R$ 795
- 20.000 km: R$ 1.122
- 30.000 km: R$ 936
- 40.000 km: R$ 1.122
- 50.000 km: R$ 795
- Total das 5 revisões: R$ 4.770
Os preços das peças também não costumam ser exorbitantes. Um jogo com quatro amortecedores custa R$ 1.924 e as quatro pastilhas de freio dianteiras, R$ 805, na rede autorizada. Já o seguro tem preços dentro da média do segmento.
