
O diesel manterá um papel de destaque em aplicações comerciais nos próximos anos, mas, no segmento de transporte, vai conviver cada vez mais com biometano, etanol e outros biocombustíveis, além da eletricidade.
O custo das tecnologias alternativas e a infraestrutura de abastecimento é que irão ditar os próximos passos, de acordo com os participantes do painel “Matriz múltipla: o sincretismo energético do transporte e do agro”, realizado durante o Automotive Business Experience – #ABX25.
“O diesel ainda seguirá por dez anos liderando o mercado. E nós, da FPT, acreditamos muito na expansão do biometano. Entre o gás e o elétrico, o gás virá primeiro. Essa sempre foi a aposta da empresa”, afirma o diretor comercial da FPT Industrial para a América Latina, Amauri Parizoto.
“Na comparação com veículos equivalentes a diesel, os modelos a gás custam entre 15% e 20% a mais. No caso dos elétricos, o custo é duas vezes e meia maior”.
Diesel ainda terá vida longa, mesmo com ascensão do biometano
Parizoto ressalta que o diesel ainda vai prevalecer em aplicações comerciais por causa da falta de infraestrutura para fontes alternativas. Porém, acredita na expansão do biometano a partir de nichos de mercado.
“Para a nossa região, a América Latina, o gás representa um nicho de mercado bem interessante. A eletrificação vai acontecer, mas ela ainda é morosa, mesmo na Europa”, diz.
O diretor de vendas off-higway da Cummins, Mauricio Biadola, tem visão semelhante.
“O biometano pode favorecer, em um primeiro momento, os usineiros e todos aqueles setores que produzem esse gás.”
O executivo da FPT recorda que, na região de Presidente Prudente (SP), já há uma empresa fazendo a ligação dos fabricantes de biometano com os postos de combustível.
“São projetos que vão criar alguns corredores verdes e assim fomentar a venda de caminhões médios e, especialmente, os pesados. Quando o produtor tiver biometano disponível, ele precisará vendê-lo. Essa produção também vai favorecer o ‘repower’ de veículos a diesel para gás. São nichos de mercado que estão se desenvolvendo e teremos novidades pela frente”, afirma Parizoto.
Novas formas de combinar combustíveis
O painel foi mediado pela repórter do caderno Estradão, Andrea Ramos, que perguntou aos convidados sobre a viabilidade da tecnologia híbrida para os pesados e também sobre motores que combinem combustíveis diferentes.
O gerente de pesquisa e desenvolvimento da Bosch, Fernando de Oliveira Júnior, recorda que as tecnologias disponíveis já exploram novas combinações de biocombustíveis.
“Temos trabalhado com alguns parceiros em aplicações fora de estrada, em que motores de locomotivas e caminhões de mineração combinam o uso de diesel e etanol [dual fuel]. É uma alternativa viável para redução da pegada de carbono nesses equipamentos”, diz.
A injeção simultânea de etanol e diesel reduz o volume de combustível fóssil queimado.
“Dispomos de uma riqueza tecnológica muito grande. Há também o bi fuel, em que um motor de ciclo Otto pode trabalhar com biometano ou etanol, o que representa uma dupla oportunidade de redução de carbono”, recorda o executivo da Bosch.
Motores flex e biodiesel são tendências
Parizoto, da FPT, revelou que está na fase final do desenvolvimento de um motor que rodará com gás ou etanol.
“O foco estará em modelos mais urbanos, como vans e pequenos caminhões. A viabilidade de manufatura vai ocorrer entre dois e três anos. A ideia é começar com um nicho menor e promissor para depois seguir com outras aplicações.”
Biadola, da Cummins, acredita que o etanol ou o biometano podem ser preferidos no agro, desde que façam sentido para certos ecossistemas.
“Há também o biodiesel, que caminha para uma mistura cada vez maior (ao diesel fóssil), ao mesmo tempo em que avançam o HVO e a eletrificação, todos seguindo juntos e cada vez mais presentes.”
Poder público e infraestrutura
Em virtude do Combustível do Futuro – Lei nº 14.993/24 – que visa à descarbonização dos transportes, a mediadora Andrea Ramos perguntou aos participantes sobre o papel que o governo deve exercer na transição energética.
“A Cummins entende que são necessários três pilares para acontecer: prontidão tecnológica, regulamentação e infraestrutura. O governo entra com o subsídio à infraestrutura, abrindo campo para implementarmos a tecnologia”, afirmou Biadola.
Amauri Parizoto pensa que o incentivo do governo é extremamente importante, já que é difícil obter retorno em investimentos como este. Já Oliveira Júnior acredita na necessidade de um trabalho conjunto entre governo, indústria e setor acadêmico “para que as coisas aconteçam”.
No fim do painel, Andrea perguntou sobre a possibilidade do programa Euro 7, de controle emissões no Brasil.
Oliveira Júnior, da Bosch, afirmou que a redução de emissões de poluentes é a prioridade.
“A saúde pública é um tema muito relevante, assim como segurança veicular e descarbonização. É uma tendência, precisamos só avaliar qual o momento adequado.”
Parizoto, da FPT, cita que a resistência ocorre em virtude da retração de alguns mercados, do avanço dos elétricos, e que ainda levará de cinco a sete anos, mas será implantado.