
Quando falamos de mobilidade, não falamos apenas em criar malha metroviária, implementar faixas de ônibus, alargar calçadas, desincentivar o transporte individual etc. Falamos também de tirar veículos motorizados das ruas, pois isso diminui a poluição, reduz os congestionamentos e melhora a qualidade de vida dos pedestres que circulam pela cidade.
Nesse sentido, têm começado a aparecer, nos últimos anos, projetos ousados que propõem algo novo: transferir para o subterrâneo das cidades o transporte de cargas.
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Essa ideia, que parece de outro mundo, já está sendo pensada por diversos países, principalmente na Europa, seja com veículos adaptados, seja com esteiras rolantes.
O Cargo sous Terrain da Suíça
O projeto mais notável nesse segmento é o Cargo sous Terrain (CST), da Suíça. Idealizado em 2013, ele será uma longa rede de túneis que se estenderá de Genebra, no sudoeste, até St. Gallen, no norte, conectando dois extremos do país.
Por esses quase 500 km de túneis passarão apenas veículos de carga elétricos, automatizados e sem motorista, que se deslocarão sobre trilhos a 30 km/h. Sem motoristas e nem operadores, os trens irão parar em estações com rampas automáticas por onde serão retirados os pellets ou contêineres.
As obras começaram em 2023 e a primeira seção de 70 km, conectando o centro logístico de Härkingen-Niederbipp a Zurique, está prevista para ser inaugurada em 2031. A ideia é que o restante da rede esteja disponível até 2045, com um investimento total de 30 bilhões de francos suíços, algo em torno de R$ 206 bilhões.


Para os suíços, faz total sentido: estudos conduzidos pelo governo apontam que o volume de bens transportados no país aumentará 31% até 2050. As atuais rotas de tráfego não irão conseguir suportar esse aumento no volume sozinhas.
“A expansão ilimitada das infraestruturas de transporte não é viável. Por esse motivo, estão sendo buscadas novas rotas para o abastecimento dos centros urbanos. O Cargo sous Terrain é uma solução inovadora com uma infraestrutura destinada exclusivamente ao transporte de cargas. Ele alivia a sobrecarga das ferrovias e rodovias em pontos críticos”, afirma o site oficial.
O financiamento é todo feito com verba do setor privado, que é quem mais se beneficiará da nova rede. A ideia é que a CST ofereça diversas opções de serviços, desde viagens individuais até pacotes completos (da doca de carregamento até o destino final), incluindo também a logística na superfície.
A energia que abastecerá o sistema será 100% originada de fontes renováveis. Com a chegada do CST, estima-se que o tráfego de mercadorias pesadas nas estradas da Suíça será reduzido em 40% – ao transferir esse tráfego para o sistema subterrâneo, tanto os níveis de poluição sonora quanto as emissões de dióxido de carbono devem cair fortemente.
A Autoflow Road do Japão
No Japão, há um projeto semelhante ao da Suíça. Batizado de Autoflow Road, ele será um sistema automatizado de esteiras rolantes e túneis subterrâneos para transporte de cargas entre Tóquio e Osaka, o que dá aproximadamente um circuito de 500 km – mesma distância entre São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG), ou então entre Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC).

Embora a rota exata ainda não tenha sido definida, os contêineres, que terão capacidade de até uma tonelada de mercadorias cada um, andarão na superfície em vias paralelas às estradas existentes, além de percorrer túneis construídos especialmente para esse fim.
A ideia é que eles operem de forma autônoma 24 horas por dia e entregando, em um único dia, o equivalente ao trabalho de 25 mil motoristas humanos.
Neste vídeo divulgado pelo governo, é possível ver o conceito em funcionamento:
Parte da ideia é melhorar os índices de tráfego e poluição, é claro, mas o Japão tem um problema ainda mais urgente: a falta de renovação da população.
Para se ter uma ideia, a taxa de natalidade do país ficou em 1,2 parto por mulher em 2023 (queda de 5,6%), bem abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável. A população japonesa, que atualmente está em 125 milhões de pessoas, deve cair para 87 milhões em 2070 (queda de mais de 30%).
Com isso, vai cair também o número de motoristas de carga: dos 660 mil que existiam em 2020, eles irão para 480 mil em 2030. Além disso, novas leis aprovadas recentemente no Japão limitaram o número de horas extras que esses trabalhadores podem executar.
Mas os humanos ainda serão necessários dentro do esquema da Autoflow Road, executando o percurso de primeira e última milha.
O Japão não divulgou oficialmente o valor do projeto, mas o jornal local “Yomiuri Shimbun” o estima em aproximadamente R$ 137 bilhões. Os primeiros testes do sistema devem começar em 2027 ou 2028 e a operação comercial está prevista para a primeira metade da próxima década.
As entregas expressas no Reino Unido
No Reino Unido, a Mole Solutions desenvolve um conceito de tubos subterrâneos para transporte de cargas sólidas, com vagões automatizados que percorrerão trilhos na superfície ou no subterrâneo.
Já foram realizados testes de viabilidade, com estudos conduzidos por instituições como a University of Northampton, que analisaram demandas e potenciais usos urbanos do sistema.

Cada cápsula comportará até dois pallets padrão. Os vagões de aço correrão por tubos de concreto medindo entre 1,3 m e 2,4 m de diâmetro, com o carregamento e o descarregamento sendo realizados automaticamente.
Os pallets descarregados seriam armazenados em depósitos com controle de temperatura. A última milha não está contemplada no projeto e provavelmente seria feita por entregadores humanos.
Além de ser automático e funcionar 24 horas por dia, seria um sistema econômico: cada quilômetro de faixa custaria cerca de 2 milhões de libras (US$ 2,6 milhões) e os custos operacionais seriam apenas entre 12% e 20% daqueles do transporte rodoviário.
E no Brasil?
No nosso país, há mais de 3,5 milhões de caminhões em circulação e cerca de 75% das mercadorias (58%) utilizam o modal rodoviário.
A Pesquisa Anual de Serviços (PAS) 2022 do IBGE indica que existem 103.775 empresas atuando no transporte rodoviário de cargas e, segundo o Sindipeças, a frota de caminhões em circulação no Brasil é de 2,24 milhões de veículos em 2025.
Uma indústria essencial, com certeza. Mas que tem seus problemas: embora os caminhões e ônibus só representem 5% da frota em São Paulo, por exemplo, eles são responsáveis por metade da poluição.
Além disso, os acidentes com veículos pesados causaram três vezes mais mortes que os com veículos pequenos em 2024 nas rodovias federais: foram 20.744 sinistros e 3.291 óbitos no ano passado.
Talvez, com um sistema que aproveite as ideias dos túneis subterrâneos da Suíça, do Japão e do Reino Unido, seja possível criar uma alternativa para o transporte de cargas no Brasil. Uma que reduza os veículos pesados nas ruas, melhore a qualidade do ar e garanta mais segurança nas estradas.