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AB 30 anos: 5 pontos em que a mobilidade avançou no Brasil nessas três décadas

Viagens por aplicativo, carros elétricos, metrô, bicicletas. .. até que temos o que comemorar
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Victor Bianchin

25 abr 2025

8 minutos de leitura

Nos últimos 30 anos, a mobilidade esteve em pauta quase o tempo todo no Brasil. Saltamos de 161 milhões para 211 milhões de habitantes — e essa gente toda precisa se locomover. Para um país que viveu “50 anos em 5”, com asfalto para todo lado e esquecendo o transporte ferroviário, o fim da década de 1990 pode ser considerado um renascimento para as outras formas de mobilidade.

Avançamos no metrô, nas bicicletas, na micromobilidade e no ride-hailing. Mas ainda somos altamente dependentes dos carros particulares e das ruas e avenidas, pois falta transporte público e o que existe não dá conta da demanda.

Em comemoração aos 30 anos de Automotive Business, refletimos sobre os cinco pontos em que a mobilidade mais avançou nos últimos 30 anos no Brasil. 

1) Expansão dos sistemas metroviários

Em 1995, o Brasil contava com sistemas de metrô em apenas quatro cidades: São Paulo (SP), em operação desde 1974, Rio de Janeiro (RJ), em operação desde 1979, Belo Horizonte (MG), inaugurado em 1986, e Recife (PE), inaugurado em 1985 – embora ainda tivesse características mais próximas de um trem urbano. Outros sistemas, como o de Brasília, estavam ainda em fase de planejamento ou obras no período. 

O número aumentou pouco em 30 anos: apenas Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Brasília (DF) se juntaram à lista. Outras cidades, como Porto Alegre (RS), João Pessoa (PB), Natal (RN), Maceió (AL), têm outros sistemas de transporte sobre trilhos, como trens urbanos, VLTs e monotrilhos, muitos deles inaugurados nessas três décadas que passaram.

O sistema, obviamente, ainda é muito deficitário em relação à demanda. Essa realidade pode estar prestes a mudar com os projetos dos trens intercidades na região metropolitana de São Paulo e a retomada do trem-bala, cujas obras devem começar em 2027.

2) Chegada da tarifa zero

​A primeira cidade brasileira a implementar a tarifa zero no transporte público foi Conchas, no interior de São Paulo, em 1992. Isso aconteceu logo após a então prefeita da capital, Luiza Erundina, propor a ideia para São Paulo. Em 1995, apenas um município tinha se somado à lista: Paulínia, também em São Paulo.

Desde então, o assunto avançou significativamente na pauta pública, especialmente a partir dos anos 2000. Hoje, existem 127 cidades no Brasil com a tarifa zero implementada total ou parcialmente e o número segue crescendo.

Em reportagem recente, Automotive Business consultou dados e especialistas que atestaram: a tarifa zero aumenta a circulação de passageiros, movimenta a economia e diminui a poluição. Além disso, não é tão onerosa para os cofres públicos.

3) Avanço da mobilidade elétrica

Em 1995, ainda não havia carros elétricos à venda para o público geral no Brasil. Mesmo em outras partes do globo, a tecnologia ainda era muito experimental e os poucos modelos que existiam tinham mais caráter de protótipo do que de produto final.

O que existia, em termos de eletrificação, eram os trólebus do transporte público, que já circulavam há décadas – só em São Paulo, havia 400.

Esse cenário só começou a mudar, e muito lentamente, a partir dos anos 2010, com a chegada dos primeiros veículos elétricos importados e o início de discussões sobre infraestrutura de recarga e incentivos.

Em 2024, o Brasil bateu recorde com 177.358 veículos eletrificados leves emplacados (crescimento de 89% ano a ano). De acordo com um estudo da consultoria McKinsey & Company, a frota de veículos elétricos no Brasil deve chegar a 11 milhões em 2040, o que equivale a 20% da frota circulante atual. 

Os ônibus elétricos também avançam no país, ainda que a passos de formiga. E iniciativas de micromobilidade, como as bicicletas elétricas e os patinetes, também têm ganhado espaço.

4) Chegada do Uber e transformação das viagens curtas

Nos anos 1990, quem precisava ir do ponto A ao ponto B e não tinha carro só tinha duas opções: ir de ônibus (e fazer a pé os caminhos entre as paradas e os pontos de origem/destino) ou pegar um táxi. Em junho de 2014, a Uber chegou ao Brasil e virou essa história de cabeça para baixo.

A ideia de oferecer um serviço de viagens curtas e personalizadas, acessíveis e pagáveis por aplicativo, era realmente revolucionária. Em um país com um sistema de transporte público tão precário, a demanda provou ser farta.

Dos 500 motoristas que a Uber tinha quando estreou, hoje são 1,27 milhão de pessoas atuando no segmento no Brasil, o que inclui também outros apps, como 99.

É um serviço que traz conveniência e comodidade, mas que cobra seu preço das cidades. Um estudo da ANTP em 2019 mostrou que a presença dos motoristas de aplicativo aumenta o consumo de energia, eleva a emissão de poluentes e aumenta o número de sinistros no trânsito.

Outro estudo, realizado pelo MIT em 2021, mostrou que os congestionamentos cresceram em intensidade (1%) e duração (4,5%) nos EUA por causa dos aplicativos, ao passo que a diminuição no uso de carros particulares foi de apenas 1%.

A esses fatores, soma-se também a problemática da “uberização do trabalho”, já que esses motoristas atuam como autônomos e, portanto, não têm direito a benefícios como férias, 13o e INSS.

Os entregadores de aplicativos como iFood (outra categoria que emergiu na última década) sofrem do mesmo problema. Não obstante, esses trabalhadores ficam sujeitos a mudanças arbitrárias no cálculo de sua remuneração por parte das empresas, o que costuma gerar protestos.

O Brasil ainda não sabe como conciliar a necessidade que as cidades têm por esses tipos de serviços com a importância de remunerar esses trabalhadores adequadamente e criar medidas que zelem pela sua segurança física e mental. Esse é um desafio que irá se desenrolar pelos próximos anos.

5) Avanço da bicicletas e das ciclovias

Na década de 1990, bicicleta era um artigo para lazer – a ideia de usar um veículo desses para andar em meio ao tráfego urbano era coisa de maluco. Mas o conceito, espelhado em experiências comprovadas em outros países (Paris, Barcelona, Bogotá), amadureceu no Brasil ao longo dos anos.

Um dos grandes “turning points” do transporte por bicicletas no Brasil neste século aconteceu em 2011, com a implementação do sistema Bike Rio, no Rio de Janeiro, parceria entre a prefeitura e uma empresa privada. Foi o primeiro sistema de bicicletas compartilhadas em grande escala no país, marcando uma nova fase no uso da bike como meio de transporte urbano e símbolo de mobilidade sustentável.

O apoio do Banco Itaú e da prefeitura deu legitimidade, visibilidade e financiamento ao projeto. O sucesso inicial levou à implementação do sistema em cidades como São Paulo, Recife, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte e Brasília.

Com isso, o poder público passou a tratar as bicicletas de outra forma. Rio e São Paulo mais que dobraram suas ciclovias na década seguinte.

A gestão do prefeito Fernando Haddad (2013-2016) na capital paulista teve enfoque especial nessa política. O município aumentou a rede cicloviária de 64 km para 400 km em apenas dois anos e serviu de exemplo para o resto do país.

Além disso, planos de mobilidade urbana começaram a incorporar a bicicleta como parte dos modais a partir da Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei 12.587/2012).

A partir de 2017, empresas como Yellow e Tembici passaram a operar serviços de aluguel de bicicletas com e sem docas. Programas de subsídio, como o Bike SP, surgiram logo em seguida, o que facilitou a adoção das bikes.

A pandemia também ajudou nessa transformação, pois a necessidade de distanciamento social fez com que muita gente abandonasse o transporte público e adotasse a bicicleta. Cidades como Salvador e Fortaleza criaram ciclofaixas temporárias de emergência, muitas das quais se tornaram permanentes.

Hoje, as malhas cicloviárias têm se expandido em todo o país e o transporte público cada vez mais têm incorporado medidas como os terminais com bicicletários e a integração com o bilhete único. Ainda há muito caminho a trilhar, já que o Brasil ainda é um país que mata muitos ciclistas, mas, em comparação a 1995, já fizemos muitos avanços.