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GAC quer abrir centro de P&D no Brasil para entender o país

Fabricante chinesa diz que ideia é oferecer produtos adequados às necessidades do consumidor
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Vitor Matsubara

04 abr 2025

6 minutos de leitura

Um dos centros de desenvolvimento e pesquisa da GAC na China

A GAC é uma das marcas chinesas que vão estrear no Brasil em 2025. Apesar de ainda não ter a fama de suas conterrâneas BYD e GWM, a Guangzhou Automobile Group Co., Ltd. já tem presença significativa fora da China.

Atualmente, a empresa mantém dois centros de design fora de seu país natal. Um deles fica em Milão, na Itália, e o outro está na Califórnia, nos Estados Unidos.

E se depender de Zhang Fan, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da GAC, isso também se repetirá no Brasil.

“Há interesse de nossa parte em outros mercados pelo mundo, inclusive na América do Sul e especialmente no Brasil. Acredito que é um mercado com grande potencial para nós, até porque, para fornecer um produto adequado às necessidades do consumidor brasileiro, nós precisamos entender fatores como a situação do mercado, as preferências do consumidor e as regras técnicas do país”.

Vale frisar que um primeiro passo foi dado em dezembro de 2024, quando a GAC assinou um acordo de cooperação com três universidades públicas brasileiras.

A intenção é que Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) contribuam na pesquisa e desenvolvimento dos motores flex e híbridos flex dos carros da GAC.

GAC mirou nos EUA, mas pressão política azedou os planos

O executivo conversou com Automotive Business e lembrou das outras experiências internacionais da GAC para elucidar o interesse no Brasil.

Fan revelou que o processo de internacionalização da empresa começou quando a GAC percebeu que concentrar seus esforços apenas no mercado doméstico não seria suficiente para as pretensões da companhia.

“Nós sentimos também que não poderíamos ter apenas funcionários chineses. Então, vasculhamos o mundo em busca de talentos internacionais que pudessem se juntar a nós e contribuir para construir uma marca forte e com produtos de qualidade”.

Os Estados Unidos foram o primeiro alvo da GAC em seu plano de internacionalização. A ideia era desenvolver e lançar produtos para o mercado norte-americano.

As operações por lá começaram em 2018. Desde então, a empresa inaugurou um centro de design em Los Angeles, um centro de tecnologia avançada no Vale do Silício e outro escritório de tecnologia em Detroit – simplesmente o berço da indústria automotiva local.

Esse cenário, porém, mudou justamente pelo motivo que você está imaginando.

“Infelizmente, como todos sabem, as relações entre EUA e China e o poder político colocaram muita pressão sobre as montadoras chinesas que queriam se estabelecer por lá, e fomos obrigados a suspender o plano” explicou.

“Fechamos dois centros nos EUA e apenas o centro de design em Los Angeles ainda está em operação. Pelo menos é uma operação bastante saudável”, assegurou Fan.

Área de P&D tem operação saudável dentro e fora da China

Testes de engenharia e desenvolvimento no P&D da montadora chinesa

A área de P&D da GAC existe desde 2006. Zhang disse que a evolução foi bastante rápida, “graças ao esforço de nossos colaboradores” – e também pela ajuda de parceiros.

“Inicialmente tivemos ajuda de fornecedores externos, mas logo estabelecemos nossa equipe própria de desenvolvimento de veículos e estabelecemos outras áreas”.

Os centros mantidos na Itália e Estados Unidos trabalham em conjunto com dois escritórios na China: um centro de design em Xangai e um centro de tecnologia em Xiamen. Todos respondem para a matriz em Guangzhou.

O fuso horário, que poderia ser um dos maiores obstáculos para a GAC, é visto como uma vantagem por Fan.

“Temos condição de trabalhar em conjunto com os melhores talentos pelo mundo e podemos trabalhar quase 24 horas por dia”, disse.

“Por exemplo, agora vocês estão no fim do dia, mas para mim estou no começo da jornada. O mesmo acontece com nossos colegas da América do Norte e Europa, então podemos trabalhar permanentemente em um mesmo projeto, ainda que em localidades diferentes”.

Tecnologias da China nem sempre servem no resto do mundo

Simuladores ajudam no desenvolvimento de novas tecnologias

O vice-presidente de P&D da montadora chinesa, porém, admitiu que não é fácil trabalhar em um ambiente dinâmico como o da indústria automotiva.

“Se você ficar na zona de conforto e trabalhar apenas com base em experiências anteriores, nunca vai dar certo. Em mercados competitivos como a China, existem milhares de marcas competindo em um mercado tão grande. A cada dia surgem novas marcas e produtos. Então, existe uma pressão bastante alta sobre quem está competindo e principalmente liderando esse jogo”.

O executivo acredita que a situação é ainda mais frenética no mercado chinês, onde algumas tecnologias são muito mais avançadas do que nos demais países. Isso levanta uma preocupação dentro da GAC em relação a outros mercados pelo mundo.

“Tudo está mudando pouco a pouco, mas não de uma forma tão rápida ou drástica como na China. Não podemos apenas desenvolver as tecnologias mais avançadas e aplicá-las no resto do mundo porque nem sempre existe infraestrutura adequada para tal”, ponderou.

“Um exemplo está nas estações de carregamento. Todas as empresas na China estão investindo em estações de 800 volts, e isso não está acontecendo em outros mercados. Então, se você não tem isso, não há como usufruir de todos os avanços do produto”.

O executivo reonhece que, ao mesmo tempo em que a empresa aposta no desenvolvimento de tecnologias avançadas, adota uma estrategia de cautela em relaão ao mercado externo.

“É claro que vamos fornecer produtos com tecnologias avançadas, mas precisamos ter consciência de que eles precisam atender às necessidades de cada mercado antes de tudo. É por isso que é importante ter equipes de engenharia e de P&D nas áreas para que eles possam fornecer informações e ideias para chegar às soluções mais apropriadas para cada mercado”, completa.

Por que a GAC tem mais de uma equipe trabalhando em uma mesma ideia?

Vista aérea do campo de provas e do centro de P&D da GAC em seu país natal

A GAC atua em conjunto com fornecedores em segmentos importantes da indústria. Dois exemplos são a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, e a Huawei, hoje uma das parceiras mais cobiçadas pelas montadoras.

Ao mesmo tempo, a GAC designa mais de uma equipe de profissionais para trabalhar em tecnologias promissoras, como condução autônoma e novos tipos de baterias para carros elétricos.

“O desenvolvimento de baterias em estado sólido está em estágio avançado, inclusive com mais de uma equipe trabalhando nisso simultaneamente. Fazemos isso porque nem sempre é possível seguir apenas uma linha de raciocínio. Ainda não podemos dizer qual delas é a mais acertada, mas ao menos asseguramos que vamos ter bons resultados no futuro”, concluiu Fan.