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opinião

Como as impostoras vão salvar o setor automotivo e o mundo corporativo

Há uma série de mulheres em transformação ganhando espaço nas organizações ao deixar a sensação de fraude de lado
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Paula Braga

10 mar 2025

4 minutos de leitura

Foto: Freepik

Este ano Automotive Business completa 30 anos de história. No misto de empolgação com o futuro e balanço do passado que uma data assim simboliza, tenho refletido bastante sobre o papel da mulher no mundo dos negócios. e no setor automotivo.

Olhar para trás me traz lembranças de um início de carreira marcado pela escassez de referências femininas, com poucas mulheres no setor automotivo e ainda mais raras na liderança.

Nos anos 90, já organizávamos os principais eventos do segmento e lembro de não ver mulheres nem nos palcos, nem na plateia. Admito que, naquela época, a situação soava absolutamente normal.

Hoje vivemos um cenário bem diferente. Nos últimos anos, acompanhamos presença crescente de mulheres em posições de liderança. Hoje somos quase 30% da força de trabalho nessas cadeiras, segundo a nossa pesquisa Diversidade no Setor Automotivo.

Felizmente, há muitas pessoas inspiradoras que guiam nossos sonhos e carreiras. E boa parte das mulheres – e dos homens, já considera absurdo eventos, empresas e equipes compostas massivamente de forma tão homogênea por homens.

Além da resistência das empresas, mulheres enfrentam os próprios receios

Ainda assim, não podemos fechar os olhos para o processo árduo que essas executivas enfrentaram para ascender profissionalmente. A jornada para o topo ainda é repleta de desafios e um deles é interno: a Síndrome de Impostora. Que atire a primeira pedra quem nunca passou por isso.

O sentimento de não merecer certo reconhecimento ou de não estar a altura de determinada posição atinge muita gente, mas é particularmente prevalente entre mulheres em ambientes de alta pressão. Um estudo da KPMG Women’s Leadership Summit (2020) mostrou que 75% das executivas entrevistadas experimentaram a Síndrome da Impostora em algum momento da carreira.

Dúvida constante sobre as próprias habilidades e experiência, medo de falar em público e a sensação de que o próprio sucesso é fruto de algum acaso, não de merecimento. Esses sentimentos podem paralisar e afetar a confiança, inclusive, para novos projetos e oportunidades futuras.

As impostoras em transformação

Eu precisei de muito autoconhecimento para deixar de lado a impostora que morava em mim. Confesso que, vez ou outra, ela ainda sussurra no meu ouvido, mas hoje já sei como desligar o ruído e seguir em frente.

Ao observar as grandes mulheres do setor automotivo, fico muito orgulhosa ao perceber quando conseguem contornar esse abismo e abrir espaço para um novo mundo cheio de grandes oportunidades.

Chamo elas de impostoras em transformação. Mulheres corajosas, ambiciosas e que enfrentaram, muitas vezes de forma solitária, milhares de medos para mudar uma realidade, conquistar a própria independência e defender as próprias ideias e projetos.

O sucesso nas mãos das impostoras em transformação

Esse processo de encarar a impostora de frente e evoluir a partir dela é tão poderoso que genuinamente acredito que é isso que vai garantir o sucesso das organizações. Se existe uma palavra que define o futuro dos negócios é inovação. Inovar não funciona se não houver um ambiente adequado que estimule a busca que novas respostas e pontos de vistas.

Neste momento, as habilidades humanas são o que há de mais valioso. No South By Southwest (SXSW), festival de inovação que estou acompanhando nos Estados Unidos, tenho escutado muito sobre como a desconstrução da Síndrome da Impostora é uma caminho para abrir diálogos.

Imagine só ouvir de uma liderança que ela também não se considerava boa o bastante em algum ponto da carreira. É a desconstrução do mito de que precisamos ser invencíveis.

A escritora e pesquisadora Brené Brown falou algo valioso a respeito em uma das discussões que acompanhei no SXSW.

“Acredito que o paradoxo, a metáfora e a poesia serão o caminho para lidarmos com questões muito complexas. Não encontraremos a solução para liderarmos a inteligência artificial em conjuntos de dados binários. Teremos de sair dos prédios da computação e visitar os prédios das artes liberais.”

No fim das contas, a solução para os desafios e a inovação que precisamos está nas mão do que há de mais humano, não da tecnologia. Tenho certeza que desconstruir as impostoras pouco a pouco, criar conexões com outras pessoas, nos abrir para a vulnerabilidade é o melhor caminho para o sucesso.

Talvez não o mais rápido, mas com certeza o mais consistente.