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Os carros mais emblemáticos do engenheiro Gurgel

Dono da marca genuinamente brasileira que carrega seu nome criou modelos inovadores e faria 100 anos
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Fernando Miragaya

26 mar 2026

8 minutos de leitura

Gurgel e o buggy QT
Gurgel e o buggy QT – Foto: Divulgação

O dia 26 de março é uma data especial para os entusiastas de carros e da indústria automotiva nacional. É quando João Augusto Conrado do Amaral Gurgel faria 100 anos.

O engenheiro, formado pela Escola Politécnica de São Paulo em 1949, criou a primeira fabricante de carros brasileira e até hoje é enaltecido pelas suas façanhas. Para alguns críticos, um sonhador. Mas, para muitos, Gurgel foi um gênio que criou carros emblemáticos com a marca que levava seu sobrenome.

O engenheiro, que faleceu em 2009, começou fazendo karts e pequenos modelos infantis e depois ergueu uma montadora que produziu mais de 40 mil veículos. Nesta matéria especial, separamos alguns carros emblemáticos da Gurgel.

Ipanema

Gurgel Ipanema no Carde Museu
Buggy tinha carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro – Foto: Carde Museu

O primeiro dos carros emblemáticos idealizados pelo engenheiro após a criação da Gurgel Motores S/A foi um buggy raiz. A carroceria de plástico com fibra de vidro e a capota de lona deixavam claras suas pretensões praianas e fora de estrada.

Assim como outros buggies, se valia da mecânica do Fusca. O motor 1.6 refrigerado a ar também era da Volkswagen, assim como a suspensão.

Xavante

Gurgel Xavante X12 das Forças Armadas
Xavante foi recrutado pelas Forças Armadas – Foto: reprodução

O Ipanema agradou tanto pela robustez que o projeto originou um jipe. Em 1973 foi lançado o Xavante, com o mesmo conceito de carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro.

Espécie de híbrido de jipe e buggy, era equipado com pneus de uso misto, carregava o estepe sobre o capô e ainda se valia do Selectraction (uma espécie de pai do Locker), o bloqueio temporário do diferencial que podia salvar o Xavante de atoleiros.

Chassi e motor 1.600 de 60 cv eram da Volkswagen. O Xavante teve até configurações desenvolvidas para as Forças Armadas e depois passou por evoluções, como veremos mais adiante.

Itaipu

Gurgel Itaipu
Itaipu tinha baixa autonomia e levava tempo para carregar, mas antecipou o carro elétrico

Muito, mas muito antes dessa overdose de carros elétricos, a Gurgel teve um carro movido puramente a baterias. Falamos do Itaipu E150, que não foi produzido em série, mas que foi emblemático na história da marca e da própria indústria.

O nome obviamente era uma referência à usina hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. O carrinho era todo geométrico, tinha apenas dois lugares e motor de 11 cv.

Porém, a tecnologia de baterias não era nem sombra do que é hoje. Para se ter ideia, o Itaipu tinha 460 kg, e 320 kg eram das enormes e pesadas baterias.

Além disso, a autonomia era de apenas 80 km e as baterias levavam até 10 horas para carregar. A ideia de produção a partir de 1975 foi arquivada e o saldo foram 27 protótipos produzidos.

Gurgel ainda insistiu com veículos eletricos em 1980, só que na seara dos veículos comerciais. Lançou o Itaipu E400, furgão que acabou sendo incorporado a frotas de empresas brasileiras de energia.

O motor gerava o equivalente a 11 cv e esbarrou no mesmo alcance limitado de 80 km e em quase metade de um dia para recarregar as baterias.

XEF

Gurgel XEF no Carde Museu

O sedã compacto não foi um dos carros de sucesso da Gurgel, pelo contrário, mas foi bastante simbólico. A começar pelos três bancos dianteiros e o conceito de city car compacto como solução de mobilidade.

Tanto que seguiu a tendência dos modelos bem pequenos da marca. Tinha apenas 3,12 metros (40 cm a menos que um Fiat Mobi) e pesava 680 kg.

O conjunto mecânico era herança da VW Brasília. O tamanho e o posicionamento fizeram o carro durar pouco no mercado.

Tocantins

Gurgel X-12 Tocantins
Tocantins era um jipinho com motor e câmbio VW – Foto: reprodução

Em 1988 a Gurgel lançou uma espécie de nova geração do Xavante/X12. O modelo era 20 cm mais comprido e ganhou faróis retangulares, enquanto abriu mão do galão de combustível e do filtro de ar externos.

Tinha vários elementos de outros carros feitos aqui. Por exemplo, as maçanetas externas vinham do Fiat Prêmio CSL, o quadro de instrumentos era do Fusca e alguns comandos foram trazidos do Gol.

O motor era o VW 1600 refrigerado a ar velho de guerra. Mas o câmbio era do Fusca 1300. Passou por uma reestilização em 1992 e foi produzido até 1993.

Carajás

Gurgel Carajás
Carajás: o pai dos SUVs urbanos? – Foto: reprodução

Pode-se dizer que a Gurgel foi pioneira até na onda de SUVs aventureiros e para uso urbano. Em 1984, a marca lançou o Carajás.

O utilitário esportivo quadradão estreou com motor AP 1.8 refrigerado a água da VW. Foi o primeiro Gurgel com propulsor dianteiro, mas a tração e a transmissão eram traseiras.

Tinha o sistema Seletraction e suspensão independente nas quatro rodas. O Carajás chegou a ter variantes com o propulsor 1.5 diesel da Kombi, que acenava com incríveis 1.500 km de autonomia.

Assim como outros modelos da marca, a parte interna era um apanhado de outros veículos. O painel trazia uma mistureba de mostradores de Ford F-1000, VW Gol e Fiat 147. O volante era o quatro bolas da VW.

Passou por mudanças em 1988 e teve configuração quatro portas a partir de 1989. A produção foi encerrada em 1993 com a falência da empresa.

BR-800

Caminhão cegonha com várias unidades do Gurgel BR-800
Cegonha com o primeiro carro 100% brasileiro da história – Foto: acervo Carde Museu

O que ficaria conhecido como carro popular nasceu em 1987, quando João do Amaral Gurgel criou o projeto Cena – sigla para Carro Econômico Nacional. A ideia era lançar um subcompacto para ser o primeiro automóvel 100% brasileiro.

Em 1988, depois de protótipos e de um quiproquó com a família do piloto Ayrton Senna, foi lançado como BR-800, número em alusão à cilindrada do motor dois canecos.

O 0.8 de 32 cv desenvolvido pelo próprio Gurgel era feito de bloco fundido em liga de alumínio-silício. Com 634 kg, o carro obtinha médias de consumo acima dos 13 km/l.

O subcompacto de 3,19 metros teve um lançamento diferente e ousado. O engenheiro já havia aberto o capital da Gurgel Motores S/A e quem quisesse ter o carro na garagem precisava comprar um lote de 750 ações da empresa.

A campanha publicitária trazia uma espécie de misto de provocação e autoestima lá em cima: “se Henry Ford o convidasse para ser seu sócio, você não aceitaria?”. A jogada deu certo. Foram 10 mil ações negociadas, o que capitalizou a Gurgel e possibilitou a conclusão da ampliação da fábrica de Rio Claro (SP).

Mas a história foi cruel com o carro 100% nacional. O governo definiu um novo IPI para automóveis com motor até 1,0 litro com alíquota de 10% – o BR-800, até então, pagava 5%, enquanto as montadoras tradicionais pagavam 25% para motores maiores.

Isso deixou modelos como Fiat Uno e Volkswagen Gol com preços mais próximos. Menor, menos potente e barulhento, o BR-800 perdeu mercado e deixou de ser produzido em 1991.

Supermini

Gurgel Supermini
Supermini, o ato de despedida da Gurgel

Mas Gurgel não cedeu fácil e fechou a história de sua montadora com mais um dos seus muitos carros emblemáticos. O Supermini foi apresentado em 1992 como uma espécie de evolução do BR-800 justamente para bater de frente com a onda de “carros populares”.

O novo subcompacto tinha desenho mais moderno, acabamento mais caprichado e dinâmica aprimorada. Até o espaço interno era “melhor”, graças ao aumento do entre-eixos de 1,90 metro para 2 metros.

O motor herdado do BR-800 teve o cabeçote redesenhado e as válvulas de admissão aumentadas para entregar 36 cv. A carroceria seguia a lógica do poliéster reforçado com fibra de vidro.

Porém, repleta de dívidas, a Gurgel entrou em concordata em 1993. A decretação de falência ocorreu um ano depois e assim chegou ao fim a história da primeira montadora nacional.