
O Brasil hoje tem um dos parques industriais automotivos mais plurais do mundo, com 15 unidades fabris de cujas linhas saem automóveis, comerciais leves e modelos pesados. Mas nem sempre foi assim.
Houve uma época – na verdade, longas décadas – em que as demandas do mercado nacional e dos vizinhos latinos eram atendidas por um número bem menor de fábricas.
Volkswagen, Fiat, General Motors, Ford e Toyota davam conta no segmento de veículos leves e também nos pesados. A Scania e a Mercedes-Benz, por sua vez, se dedicavam à produção de caminhões exclusivamente.
Como nada é para sempre, como diz o ditado popular, circunstâncias econômicas e planos de expansão pavimentaram o caminho para a chegada de outras fabricantes por aqui, sobretudo a partir do ano 2000.
Atraídas por mercados proporcionando maiores volumes, e também por benesses fiscais, um grupo com mais de dez empresas desembarcaram no Brasil para produzir localmente.
O investimento conjunto dessas companhias, digamos, novatas àquela época, girou em torno de R$ 30 bilhões, um pouco mais, um pouco menos, considerando a variação cambial.
Nessa lista que integra o especial de 30 anos de Automotive Business, contamos um pouco a respeito dessas novas fábricas, as quais trouxeram novos modelos, novos fornecedores e, consequentemente, novos empregos.
1. Iveco queria mais do que a Europa

Tipo: Caminhões, ônibus e veículos militares
Cidade/Estado: Sete Lagoas, MG
Data de Inauguração: 2000
Número de Funcionários: Cerca de 2.000
Investimento: US$ 300 milhões (aproximadamente R$ 600 milhões na época)
A primeira operação da Iveco no país começou em 2000, por meio da fábrica erguida em Sete Lagoas (MG). Foi a primeira fábrica da montadora fora da Europa a produzir caminhões e, posteriormente, começou a fabricar veículos militares, como o Guarani, utilizado pelo Exército Brasileiro.
2. Toyota queria uma fábrica mais sustentável

Tipo: Automóveis (Yaris, Corolla Cross)
Cidade/Estado: Sorocaba, SP
Data de Inauguração: 2012
Número de Funcionários: Aproximadamente 2.000
Investimento: US$ 600 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão na época)
A fábrica da Toyota instalada em Sorocaba (SP) foi construída com a missão de ser uma das mais sustentáveis da montadora no mundo, com reutilização de água, painéis solares e um imenso espaço verde dentro do complexo industrial, tendência que até hoje segue viva, com outras fabricantes tentando seguir o mesmo caminho em suas linhas de montagem. Hoje a unidade sorocabana concentra toda a produção de veículos da Toyota no país, depois do fechamento da unidade de Indaiatuba, também em São Paulo.
3. Hyundai e a fábrica do HB20

Tipo: Automóveis (HB20, Creta)
Cidade/Estado: Piracicaba, SP
Data de Inauguração: 2012
Número de Funcionários: Aproximadamente 2.800
Investimento: US$ 700 milhões (cerca de R$ 1,4 bilhão na época)
A “fábrica do HB20” começou os seus trabalhos em 2012 em Piracicaba (SP), e depois passou por diversas expansões, sobretudo na unidade de produção de motores. O HB20, primeiro modelo produzido na unidade, foi projetado exclusivamente para o mercado brasileiro, diferente de outros Hyundai vendidos globalmente.
4. O sotaque fluminense da Nissan

Tipo: Automóveis (Kicks, Versa)
Cidade/Estado: Resende, RJ
Data de Inauguração: 2014
Número de Funcionários: Cerca de 2.200
Investimento: R$ 2,6 bilhões
A fábrica de Resende (RJ) da Nissan foi inaugurada em 2014 e foi a primeira da montadora na América Latina. O fato é curioso porque, hoje, a montadora tem um parque fabril importante em outra localidade na região, no caso, no México, de onde saem modelos Nissan para atender às demandas dos Estados Unidos. A unidade fluminense tem um complexo próprio para produção de motores, garantindo mais independência na fabricação.
5. BMW foi a primeira premium por aqui

Tipo: Automóveis (Série 3, X1, X3)
Cidade/Estado: Araquari, SC
Data de Inauguração: 2014
Número de Funcionários: Cerca de 700
Investimento: R$ 1 bilhão
A fábrica da BMW instalada em Araquari, em Santa Catarina, foi erguida no país na esteira do Inovar Auto, um regime automotivo que concedia benefícios fiscais para empresas que investissem em produção local. Uma das características dessa fábrica é a capacidade de produzir um modelo da marca do zero em apenas 10 horas, um dos tempos mais rápidos entre as fábricas da marca no mundo.
6. A primeira vez da Jeep

Tipo: Automóveis e comerciais leves (Renegade, Compass, Commander, Fiat Toro)
Cidade/Estado: Goiana, PE
Data de Inauguração: 2015
Número de Funcionários: Aproximadamente 13.600 (incluindo fornecedores)
Investimento: R$ 7 bilhões
Considerada a fábrica mais moderna da Stellantis no mundo, a fábrica de Goiana (PE), erguida pelas mãos da antiga FCA, foi a primeira unidade produtiva de veículos Jeep fora dos Estados Unidos e foi também projetada com um ecossistema completo de fornecedores ao redor, no esquema condomínio industrial. É de suas linhas que saem os modelos de maior valor agregado da sua oferta, como a picape Fiat Toro e os Jeep Renegade e Compass, além, claro, da picape Ram Rampage.
7. A primeira vez da Peugeot Citroën

Cidade/Estado: Porto Real, Rio de Janeiro
Data de Inauguração: 2001
Número de Funcionários: Cerca de 1.700
Investimento Inicial: US$ 600 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão na época)
Modelos Produzidos: Peugeot 208, Citroën C3, C4 Cactus e Basalt
A fábrica da antiga PSA Peugeot Citroën em Porto Real (RJ) foi inaugurada em 2001. Foi a primeira fábrica do grupo por aqui a produzir modelos icônicos Peugeot 206, 208, 2008 e Citroën C3 e Aircross. Após a fusão da PSA com a FCA, formando a Stellantis, a fábrica continua operando, agora dentro da nova estrutura do grupo.
8. Caoa Chery em Jacareí: imbróglios

Tipo: Automóveis (Arrizo 6, Tiggo 5X)
Cidade/Estado: Jacareí, SP
Data de Inauguração: 2014
Número de Funcionários: Cerca de 600
Investimento: US$ 400 milhões (cerca de R$ 1 bilhão na época)
Também na esteira do Inovar Auto, desembarcou por aqui com produção nacional a chinesa Chery. Essa fábrica especificamente nunca alcançou voos mais altos, ou melhor, o pico de sua capacidade de produção. Além disso, sua trajetória foi marcada por episódios curiosos, como uma greve deflagrada em suas primeiras semanas de vida e, também, a suspensão de suas atividades em 2023, já como uma unidade mantida em sociedade com a Caoa.
9. Caoa Chery em Anápolis: um sonho

Tipo: Automóveis (Tiggo 5X, Tiggo 7 Pro, Tiggo 8)
Cidade/Estado: Anápolis, GO
Data de Inauguração: 2007 (Chery desde 2018)
Número de Funcionários: Cerca de 1.600
Investimento: R$ 1,2 bilhão
A fábrica da Caoa construída em Anápolis (GO) partiu de uma espécie de sonho coletivo, no qual não figurava apenas o desejo de Carlos Alberto Oliveira Andrade de constituir uma montadora brasileira, mas também os anseios do Governo Federal para que isso acontecesse — como de fato acabou acontecendo em 2007, produzindo modelos Hyundai. Mais tarde, em 2018, a unidade passou a produzir também modelos em sociedade com a chinesa Chery.
10. DAF, a caçulinha que chegou ao Brasil

Tipo: Caminhões pesados (XF, CF)
Cidade/Estado: Ponta Grossa, PR
Data de Inauguração: 2013
Número de Funcionários: Aproximadamente 700
Investimento: R$ 1 bilhão
A caçulinha das montadoras de caminhões no país chegou com produção local em 2013. A montadora escolheu Ponta Grossa (PR) como sede de sua primeira fábrica na América Latina por causa da proximidade do local com o Porto de Paranaguá, facilitando a exportação.
11. Great Wall: hello, Brazil

Tipo: Automóveis elétricos e híbridos
Cidade/Estado: Iracemápolis, SP
Data de Inauguração: Prevista para 2024 (comprada da Mercedes-Benz em 2021)
Número de Funcionários: Estimados 2.000 quando estiver operando plenamente
Investimento: R$ 10 bilhões
Como mencionado acima, a GMW desembarcou no país comprando a fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis. As linhas ainda não começaram a produzir, e existem grande expectativa no mercado de que a unidade representará, no futuro, relevante hub de produção de veículos híbridos e elétricos para os principais mercados latino-americanos.
12. O furacão BYD

Tipo: Automóveis elétricos e híbridos
Cidade/Estado: Camaçari, BA
Data de Inauguração: Prevista para 2024
Número de Funcionários: Estimados 5.000 quando estiver em plena operação
Investimento: R$ 3 bilhões
A gigante chinesa BYD seguiu os mesmos passos da GWM e acelerou o seu processo de produção local por meio da compra de uma fábrica desativada, no caso, a que produzia veículos Ford em Camaçari, na Bahia. As linhas também seguem inativas por ora, mas isso não significa que a unidade já não tenha proporcionado alguns episódios relevantes. Um deles, um caso grave, envolveu denúncias de trabalho escravo.
13 e 14. O curioso caso da Mercedes-Benz

Tipo: Caminhões e chassis de ônibus
Cidade/Estado: Juiz de Fora, MG
Data de Inauguração: 2012 (antes disso, fabricava automóveis Classe A)
Número de Funcionários: Cerca de 1.000 (antes da redução)
Investimento: R$ 450 milhões (para adaptação da planta)
As trajetórias das fábricas da montadora em Juiz de Fora (MG) e Iracemápolis (SP) foram marcadas por uma série de altos e baixos. A unidade mineira, inaugurada em 1999, foi construída originalmente para produzir o compacto Classe A, mas o modelo não teve o sucesso esperado. Depois, passou a fabricar o Classe C e o CLC. Em 2012, a unidade foi convertida para a produção de caminhões Accelo e Actros, e até hoje segue operando no segmento de veículos pesados.
A fábrica de paulista, por sua vez, foi inaugurada em 2016 dotada de alta tecnologia e era focada na produção de modelos premium, mas a Mercedes-Benz decidiu encerrar a produção de automóveis no Brasil em 2021 por causa de mudanças na estratégia global. Em 2021, a unidade foi vendida para a Great Wall Motors (GWM).
15. Jaguar Land Rover à espera de mais volume

Tipo: Utilitários esportivos
Cidade/Estado: Itatiaia, RJ
Data de Inauguração: 2016
Número de Funcionários: Cerca de 400
Investimento: R$ 700 milhões
A fábrica da Jaguar Land Rover (JLR), instalada em Itatiaia (RJ), foi inaugurada em 2016, sob o incentivo do regime automotivo Inovar-Auto, em vigor na época. Saem montados da unidade diariamente um volume que varia de oito a até 36 veículos. O que dita o ritmo de produção, obviamente, é a demanda do mercado.
Produzir aquém das possibilidades não é uma escolha da montadora, é bom frisar. O baixo volume é reflexo de um mercado premium doméstico que estagnou em patamar menor do que aquele que induziu a companhia a produzir localmente.
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