
Inaugurada em 2015 no município de Goiana (PE), a fábrica originalmente da Jeep completa 10 anos. O polo automotivo, hoje parte do Grupo Stellantis, transformou radicalmente o cenário industrial do Nordeste brasileiro.
Com investimentos bilionários e tecnologias de ponta, a unidade não só marcou a estreia da produção da companhia fora do Sudeste, como também impulsionou o desenvolvimento regional. Criou empregos, atraiu fornecedores e elevou a participação do estado no PIB nacional.
A produção de modelos como os Jeep Renegade e Compass, e a Fiat Toro, consolidou o polo da Stellantis no Nordeste como referência em eficiência e inovação automotiva, inclusive, na comparação com outros empreendimentos da montadora globalmente.
A estrutura pavimentou ainda o caminho para a chegada de outros modelos inéditos no país, como o SUV Jeep Commander e a picape Ram Rampage.
Abaixo listamos sete dos principais fatos da fábrica da Stellantis que completa uma década e, hoje, constitui o único polo produtivo de veículos na região Nordeste.
1. Primeira fábrica Jeep é nordestina
A fábrica da Jeep em Goiana foi inaugurada em abril de 2015, marcando um feito histórico: foi a primeira planta da marca instalada fora do Sudeste e a primeira unidade fabril de veículos do grupo FCA (Fiat Chrysler Automobile) na região, que à época contava com a Ford como única montadora local (na Bahia).
O projeto atraiu investimento inicial de aproximadamente R$ 7 bilhões, um dos maiores da história da indústria automotiva brasileira à época. Em 10 anos, o valor total investido na unidade chega a R$ 18 bilhões.
Essa iniciativa também foi impulsionada pela estratégia do governo federal de descentralizar o parque industrial nacional, visando estimular o desenvolvimento econômico de outras regiões do país. A inauguração da unidade marcou a entrada do estado de Pernambuco no mapa da produção brasileira de veículos.
O Polo Automotivo Jeep, como um dia foi chamado, foi projetado para ser um dos mais modernos do mundo. Eram mais de 600 robôs e uma estrutura de produção integrada com um parque de fornecedores localizado ao lado da planta principal.
A decisão de instalar a fábrica no Nordeste também teve respaldo logístico e estratégico. A localização próxima ao Porto de Suape facilita o escoamento de produção para exportação, enquanto a proximidade com o mercado consumidor do Norte e Nordeste reduz custos logísticos.
A planta se tornou rapidamente um símbolo do avanço industrial da região e foi essencial para atrair novos investimentos para Pernambuco e estados vizinhos.
2. Uma produção nem tão Jeep assim
O Jeep Renegade foi o primeiro modelo produzido em série na fábrica de Goiana, já em 2015. Com design robusto e proposta urbana, rapidamente se tornou um dos SUVs compactos mais vendidos no Brasil, liderando o segmento em diversos períodos.
Pouco tempo depois, em 2016, começou a produção do Jeep Compass, modelo maior e mais sofisticado, que também atingiu o topo das vendas em sua categoria, a de SUVs médios.
Ambos os veículos compartilham a mesma plataforma Small Wide e têm grande aceitação no mercado interno, sendo também exportados para países da América Latina.
A picape Fiat Toro, também lançada em 2016, foi um movimento estratégico da então FCA para aproveitar a plataforma e a linha de produção da fábrica de Goiana.
A Toro ajudou a consolidar o segmento de picapes intermediárias no Brasil e se tornou um sucesso de vendas, mesclando características de SUV e utilitário leve. Sua produção conjunta com os SUVs da Jeep mostra a flexibilidade da linha de montagem pernambucana.
Até o ano passado, a fábrica fez 2 milhões de unidades, sendo o modelo mais produzido ali o Jeep Renegade, com 660 mil veículos.
3. Chega a Stellantis
A criação da Stellantis, anunciada em 2019 e formalizada em janeiro de 2021, resultado da fusão entre o grupo ítalo-americano FCA (Fiat Chrysler Automobiles) e o francês PSA Group (dono de Peugeot e Citroën), teve impacto direto no polo do Nordeste.
Com a consolidação, a planta pernambucana ganhou ainda mais protagonismo dentro da estratégia regional da nova empresa. A Stellantis anunciou novos investimentos e confirmou a ampliação da produção com foco na modernização das linhas e no desenvolvimento de novos modelos, inclusive com atenção especial à eletrificação.
Além da produção, a integração da fábrica com o ecossistema Stellantis também trouxe impactos em pesquisa e desenvolvimento, com mais centros de engenharia no Brasil e maior intercâmbio com outras unidades da empresa.
Além de ser referência produtiva, Goiana ganhou ainda mais espaço como polo de inovação automotiva dentro do grupo, o que ampliou sua importância global.
4. Primeiro modelo Ram nacional
Em 2023, a fábrica da Stellantis em Goiana passou a produzir o primeiro modelo da marca Ram desenvolvido e fabricado no Brasil: a Rampage.
A picape representou uma mudança significativa na estratégia da empresa ao investir em um modelo premium, 100% nacional, com foco no mercado sul-americano. A Rampage foi projetada no Polo Automotivo Stellantis de Betim (MG), mas sua produção foi integralmente alocada no Nordeste, devido à capacidade tecnológica e flexibilidade da unidade.
A chegada da Ram à linha de montagem em Goiana pontuou também a ampliação do leque de marcas produzidas ali. Até então, a planta fabricava apenas modelos das marcas Jeep e Fiat.
A Rampage utiliza a mesma plataforma Small Wide que Compass, Renegade e Toro, o que permitiu adaptação da linha com investimentos menores, mantendo a eficiência e os processos de produção – um dos segredos da fábrica nordestina.
5. O Regime do Nordeste
O polo automotivo da Stellantis em Goiana foi diretamente beneficiado pelo Regime Especial Automotivo do Nordeste, criado para incentivar a instalação de plantas industriais fora do eixo tradicional do setor automotivo.
O programa prevê incentivos fiscais, como redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), e foi fundamental para viabilizar economicamente o projeto da Jeep em Pernambuco. Desde sua criação, o regime foi alvo de debates entre os estados produtores e contestado por outras montadoras instaladas no Sul e Sudeste.
A manutenção do regime, entretanto, tem sido constantemente renegociada. Em 2022, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela constitucionalidade dos incentivos, assegurando por mais alguns anos a competitividade das fábricas do Nordeste.
Isso permitiu à Stellantis manter sua estratégia de investimentos na planta de Goiana e projetar a produção de novos modelos. Para o governo de Pernambuco, o regime é visto como essencial à continuidade do desenvolvimento econômico regional.
6. Polo da Stellantis no Nordeste e seu impacto no PIB regional
Desde sua inauguração, a fábrica da Stellantis transformou significativamente a economia da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Segundo dados do governo estadual, o impacto direto e indireto no PIB de Pernambuco é estimado em cerca de 1,5% a 2% ao ano.
Municípios como Goiana, que tinham economia baseada na cana-de-açúcar e na agroindústria, viram uma rápida urbanização e crescimento na renda média da população.
De acordo com dados da consultoria Ceplan, o PIB de Goiana cresceu mais de 300% entre 2011 e 2021. A participação da cidade no produto interno bruto pernambucano saltou de 1% para 4,8% no mesmo período.
Além da geração de empregos diretos, o polo automotivo da Stellantis no Nordeste impulsionou a criação de milhares de postos de trabalho indiretos, incluindo segmentos como transporte, alimentação e serviços técnicos. Ao todo, são 60 mil posições de trabalho, segundo a montadora.
7. O futuro elétrico
A Stellantis anunciou, em 2022, plano de investimentos de R$ 16 bilhões para a América do Sul até 2025, com parte significativa direcionada à eletrificação de sua linha de produtos. A fábrica de Goiana já iniciou o processo de adaptação para receber modelos com motorização híbrida leve (MHEV).
A expectativa é a de que nos próximos anos passem a ser produzidos veículos híbridos completos ou até elétricos na fábrica de Goiana. A unidade recebeu aporte de R$ 13 bilhões para o ciclo 2025-2030 também para desempenhar essa função.
