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Comércio internacional

Com Trump, montadoras vão ter de rever margens para vendas não caírem

Com produção voltada para os EUA, fabricantes instaladas no México e Canadá terão de reorganizar custos
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Fernando Miragaya

27 jan 2025

4 minutos de leitura

A hostilidade comercial de Donald Trump vai refletir mesmo em seus vizinhos. Por terem um parque industrial moldado ao gosto estadunidense, montadoras instaladas no México e Canadá terão de rever margens caso o novo presidente leve adiante a promessa de aumentar os impostos de veículos vindos dos seus parceiros locais.

Esse pode ser o principal, porém não único, efeito direto das medidas protecionistas prometidas pelo governo Trump. Isso porque a diminuição nos embarques dos veículos feitos no México e Canadá para os EUA não seria facilmente resolvido com a busca de outros mercados para escoar essa produção.

Os dois países vizinhos têm uma indústria automotiva voltada para o mercado estadunidense. Além disso, o planejamento de produção e desenvolvimento de produtos é feito com anos de antecedência, sem falar que não é fácil arranjar novos mercados de uma hora para a outra.

“Não é fácil parar a produção em um país e começar em outro. A cadeia automotiva é bem complexa e envolve diversos sistemistas. Tem muito veículo produzido no México e Canadá com peças fabricadas nos EUA e vice-e-versa”, ressalta José Augusto Amorim, consultor automotivo radicado em Detroit (EUA).

Indústria automotiva do México e Canadá é refém dos EUA

O executivo lembra que México e Canadá atendem a um mercado automotivo dos EUA que é bastante peculiar.

“O mercado norte-americano, de um modo geral, é único, com preferência por picapes e SUVs grandes. Não será de repente que a França ou o Japão, por exemplo, começarão a comprar esses modelos. Então Canadá e México estão limitados por conta do tipo de veículos que produzem”, observa Amorim.

Para Sergio Eminente, sócio da Kearney especializado no mercado automotivo, há uma expectativa de como as fabricantes irão se reorganizar e quanto a um possível aumento no preço final dos automóveis.

“A pergunta é: como as montadoras irão reagir com relação a aumentar os preços? Elas podem repassar ao consumidor, o que irá forçar a inflação e impactar a demanda, ou poderão absorver parte do impacto de custo para manter a demanda”, afirma.

Montadoras terão de cortar margens com as tarifas de Trump?

O fato de o setor automotivo do México e Canadá ser uma espécie de refém dos EUA não significa que tudo está perdido. Inclusive, essa peculiaridade do tipo de veículo fabricado nos dois países pode minimizar o impacto dos 25% de alíquota de importação ameaçados por Trump.

Só que a solução teria aquele gosto amargo nos negócios das fabricantes. Justamente reduzir as margens para não elevar os preços e perder vendas.

“As montadoras têm uma margem para absorver custos mais altos. Depende de cada veículo, mas é difícil saber o quanto elas podem absorver”, explica Amorim.

“Picapes grandes como as que GM e Stellantis produzem no Canadá e México são extremamente lucrativas, mas claro que nenhuma empresa quer ver seus lucros diminuírem”, pondera o consultor.

Cassio Pagliarini, sócio da Bright Consulting, porém, crê que tal corte de margens seria inviável com a alíquota aventada pelo governo Trump. Para o executivo, uma eventual tarifa de 25% inviabiliza os carros produzidos no México e no Canadá no mercado dos EUA.

“Um imposto de 25% vai bloquear as importações do México e Canadá. Ninguém tem margem para compensar metade desse imposto”, diz o consultor.

Fabricantes devem seguir com planos para eletrificados

Outro ponto que gera apreensão com a volta de Trump à Casa Branca é quanto à eletrificação e descarbonização da cadeia automotiva. Por exemplo, o novo presidente já avisou que vai acabar com os incentivos para compra de carros elétricos.

Porém, os planejamentos a curto e médio prazos não devem ser revistos. Mesmo com as movimentações de Trump, as montadoras e seus fornecedores vão manter seu cronograma de lançamentos de produtos híbridos e elétricos para os próximos anos.

“Pelos investimentos já feitos em veículos elétricos, as OEMs devem seguir empurrando o mercado, independentemente de decisões de curto prazo”, acredita Sergio Eminente.

“Não vejo muito como mudar no curto prazo, mas dá para imaginar as montadoras mudando os planos mais para a frente. Mas não abandonando todos os planos de eletrificação, até porque tudo pode mudar de novo em quatro anos”, observa Augusto Amorim.

A questão da eletrificação, inclusive, pode servir de palco para uma guerra fria entre o republicanos e democratas. A Califórnia, por exemplo, é o maior mercado automotivo dos EUA e tradicionalmente tem legislação mais rigorosa contra a emissão de gases poluentes.

“A mensagem que chega ao consumidor caso o governo acabe com os incentivos é poderosa, mas pode afetar muito mais estados menores, que são exatamente a base de Trump. Os estados que têm regras mais rigorosas de emissões tendem a ser democratas e podem continuar comprando elétricos numa mensagem de oposição”, diz Augusto Amorim.