logo

Mercado

Chinesas antecipam mercado de 2027 no Festival Interlagos

Montadoras novatas no mercado doméstico repetem fórmula do Salão do Automóvel de 2025 para consolidarem marcas no país

Author image

Bruno de Oliveira

28 ago 2026

5 minutos de leitura

BAIC Artfox T5 no Festival Interlagos 2026

Assim como ocorreu no Salão do Automóvel de 2025, as montadoras chinesas aproveitaram os holofotes do Festival Interlagos, em São Paulo (SP), para mostrar como será o mercado em 2027, além de dizer olá aos consumidores locais que, a julgar pelos números recentes de emplacamentos, têm se mostrado mais atraídos pelos veículos elétricos que muitas marcas, por ora, importam ao Brasil.

O mesmo bolo, mais gente para alimentar

Em termos estratégicos, nada de novo no front: o mercado nacional de pouco menos de 3 milhões de unidades zero quilômetro anuais está cada vez mais disputado por mais marcas. Como interlocutores da indústria e do varejo automotivo têm comentado por trás do biombo corporativo, “o bolo não cresceu, o que aumentou foi o número de fatias”. Tem mais gente com fome ao redor do mesmo prato.

Ainda que o cenário não seja uma novidade, chamam a atenção o volume das marcas que desembarcaram por aqui e também o apetite comercial que elas têm. A presença do bloco asiático no país incomoda, se considerarmos discursos que se tornaram tão comuns nos últimos anos. Muitos deles versando sobre como a chegada dessas empresas, seus resultados comerciais com importação e a ameaça que representariam às estruturas da indústria nacional.

Baixas no mercado previstas para os próximos meses

O fato é que tanta gente disputando um mercado que está longe de encabeçar a lista dos maiores do mundo pode gerar um fenômeno interessante e recorrente nessas situações. Com tanta concorrência, os menos favorecidos na corrida podem simplesmente em algum momento jogar a toalha e assumir a derrota, o que em termos comerciais pode significar o abandono, a retirada de cena.

Durante o Congresso Fenabrave, realizado em agosto, em São Paulo (SP), a possibilidade foi considerada pelo presidente que representa a entidade, Arcelio Junior. Na ocasião, questionado sobre o tema, ele afirmou que existe uma certa preocupação em torno de quem fica e quem sai do mercado nos próximos meses, tamanha é a concorrência em preço e produto no mercado local. Sai alguma tradicional? Um novata asiática? Ninguém sabe ainda.

Festival antecipa acirramento da concorrência em 2027

Durante os dois dias de Festival Interlagos, a reportagem de Automotive Business pôde verificar de perto que, pelo menos em termos de produto, a briga no mercado no ano que vem será ainda mais acirrada no Brasil. Não apenas porque mais modelos vão desembarcar por aqui para brigar com aqueles produzidos localmente, mas também porque na maioria dos casos a proposta de propulsão e equipamento desses veículos supera com vantagem a dos nacionais.

Em diversos casos, os modelos apresentados combinam conjuntos elétricos, sistemas de assistência à condução e equipamentos de conforto que ainda não são comuns entre os compactos e SUVs produzidos localmente.

E está aí a grande sacada de algumas marcas chinesas que estiveram presentes no evento. Talvez não exista hoje no Brasil melhor lugar para promover novidades. O festival tem uma proposta de ser espaço para o consumidor final experimentar veículos em pista, aproximá-los ao público por meio da experiência. Com uma espécie de vácuo de poder gerado pela ausência de algumas grandes marcas tradicionais em Interlagos, as chinesas aproveitaram a brecha e chamaram o protagonismo da inovação para si.

DFM e BAIC aceleram entrada no mercado brasileiro

A DFM (Dongfeng), por exemplo, foi a grande vedete do primeiro dia do festival, apresentando ao mercado os dois modelos com os quais vai iniciar sua jornada no país, e suas estratégias comerciais e industriais, ambas adiantadas por AB no começo de agosto. O hatch elétrico DFM Box se soma a uma briga onde os modelos nacionais já sofrem muita pressão com as vendas – em alta – de modelos como o BYD Dolphin Mini e o Geely EX2.

Em outro segmento já de certa forma saturado por ter tantos modelos, o de SUVs compactos, a empresa chega com o DFM Vigo, que se assemelha em alguns aspectos à geração atual do Nissan Kicks, só que com mais atributos em termos de design e, talvez, de preço – que ainda não foi revelado pela empresa, mas que deverá ser agressivo como costumam ser os tíquetes de fabricantes chinesas quando desembarcam por aqui.

A BAIC foi o destaque no segundo dia, quando trouxe ao público as marcas subsidiárias que chegam ao Brasil a partir deste ano (BAIC, Arcfox e Stelato) e quais os seus planos para constituir rede de concessionários por aqui. Algumas dessas informações AB também adiantou ao leitor por aqui há alguns dias. Vale destacar também a expansão da oferta da Leapmotor, da GWM e da Omoda Jaecoo, além de novidades das marcas MG, Jetour, iCaur, BYD e GAC.

Novidades podem redefinir o padrão dos carros vendidos no Brasil

Na faixa ocidental dos expositores, por outro lado, as novidades ficaram mais no campo das versões de modelos já consagrados e acessórios. Todos muito interessantes, como o Renault Kardian com câmbio manual e motor turbo ou o SUV importado BMW iX3, mas o contraste com as novidades do lado oriental do festival gera no visitante uma percepção inevitável de que há certa assimetria entre as realidades vividas nos dois lados. E isso pode influenciar na decisão de compra ou na percepção de valor daquilo que é Made in Brazil.

O efeito pode ir além do Festival Interlagos. Se os produtos apresentados chegarem ao mercado nos preços anunciados e com os equipamentos prometidos, a disputa de 2027 não será apenas por participação de mercado, mas pelo próprio patamar que o consumidor brasileiro passará a considerar aceitável.