
Engenheiras, operadoras de máquinas, soldadoras e programadoras de robô: cada vez mais mulheres vencem barreiras e ganham espaço na indústria automotiva ocupando posições técnicas e de liderança que historicamente são ocupadas por homens.
Segundo a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, feita por Automotive Business, a força de trabalho feminina representa 24% no setor, sendo que metade delas está concentrada nas áreas de produção e manufatura.
Engenheira da Toyota desenvolveu Yaris Cross
Na Toyota, a participação feminina nas fábricas cresceu 200% nos últimos cinco anos. Só na planta de Sorocaba (SP) foram contratadas mais de 400 mulheres para o terceiro turno e a meta é alcançar 50% de de presença na unidade nos próximos anos.
Uma dessas profissionais é a gerente de produção Maria Paula de Souza Morganti, que teve papel importante no desenvolvimento do Yaris Cross, o novo SUV compacto da Toyota, que tem variante híbrida flex, liderando time de engenharia de montagem.
“Foi muito desafiador tecnicamente porque é o primeiro compacto hibrido flex fuel feito no Brasil e traz uma tecnologia pioneira”, diz a executiva.
“Mas também foi um projeto que trouxe uma autonomia muito grande para a gente desenvolver e pensar como time Brasil, o que fez com que nós, como equipe, conseguíssemos construir uma relação muito boa de respeito, confiança e transparência.”

Na montadora desde 2008, ela entrou como engenheira júnior e avançou até cargos de liderança. Ao longo de sua carreira por vezes se deparou com a realidade de ser a única mulher na área, como quando foi a primeira profissional feminina contratada para o time de engenharia de projetos no Brasil.
“Quando entrei na indústria a diversidade de gênero ainda engatinhava, principalmente nas funções técnicas. Não tinham mulheres, mas aquilo não me intimidou e serviu de combustível para mostrar que com trabalho e entrega, a gente consegue ir subindo”, conta Maria Paula.
“A competência, a curiosidade e a técnica não têm gênero. E isso foi moldando a minha carreira dentro da Toyota.”
Atualmente, como gerente da produção da fábrica de motores de Porto Feliz (SP) ela lidera uma equipe de 102 pessoas, com apenas três mulheres.
Ao longo do tempo, a engenheira observou de perto o avanço da equidade de gênero na indústria automotiva, mas conta que ainda enfrentam existem desafios para as profissionais mulheres.
“Eu acho que ser mulher na posição de liderança ainda traz alguns desafios específicos porque, embora tenha avançado muito, existe ainda a questão do machismo estrutural que se manifesta de forma sutil. Existem expectativas diferentes, alguns questionamentos mais frequentes ou algumas barreiras que às vezes a gente, como mulher, encontra e que o homem não tem.”
BorgWarner capacita mais mulheres para usinagem
Para além da engenharia, empresas como a BorgWarner incentivam mulheres a assumirem funções ligadas à operação de máquinas, como a usinagem. A empresa formou duas turmas de mulheres da fábrica de Itatiba (SP) na iniciativa Girls in Machine, em parceria com o Senai.
“A gente via as mulheres trabalhando bastante na montagem do tubo, porém, na linha de usinagem, que é muito técnica, a participação feminina era muito mais baixa. Então, fizemos esse programa para incentivá-las”, diz a presidente da empresa, Melissa Mattedi.
Para além do trabalho, a capacitação para operar equipamentos industriais impacta também a autoestima delas.
“Uma das participantes contou que tinha medo de tirar a carteira de motorista porque não se achava capaz de dirigir um carro, mas depois que conseguiu pilotar uma máquina de usinagem, ela se sentiu tão capaz que tomou coragem e tirou a CNH. Então, a capacitação técnica dá também fortalecimento para essa mulher”, contou Melissa.
Na BorgWarner, a participação feminina total é de 33%, número que cresceu 11% nos últimos três anos, principalmente com a contratação de mulheres para mais um turno na planta. Globalmente, a empresa tem como meta atingir 35% de mulheres até 2030.
Representatividade abre portas para elas
Para quem vive o dia a dia na fábrica, como a gerente de produção Maria Paula, ver a evolução da presença feminina é motivo de comemoração e, como líder, abre portas para outras mulheres na indústria automotiva.
“Ocupar esses espaços dentro da manufatura e da engenharia não é só provar alguma coisa para alguém, mas também reconhecer o valor que a gente, como mulher, já carrega. Cada mulher que se insere dentro da manufatura, ela não só constrói a sua história, mas também consegue abrir portas para outras”, afirma.
“É muito gratificante observar o crescimento da presença feminina, acho que não só na Toyota, mas também em outras empresas, assumindo funções técnicas, na manufatura ou liderando equipes, me dá uma certa felicidade.”