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Prefeitura retira ciclovia para construir estacionamento sob Minhocão em São Paulo

Obra, que é alvo de protestos de políticos e ativistas, tem caráter experimental e pode ser aplicada a toda a via
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Victor Bianchin

29 abr 2025

4 minutos de leitura

Funcionários removem parte da calçada sob o Minhocão para instalar estacionamento – Foto: Ciclocidade/Reprodução

A semana começou confusa para quem pega a ciclovia que corre por baixo do viaduto do Minhocão, na avenida Amaral Gurgel, em São Paulo: uma equipe da Prefeitura está destruindo parte do equipamento. O motivo é que o espaço será usado para a construção de um estacionamento linear para automóveis. 

O trecho afetado vai do número 20 ao 482 da Amaral Gurgel e tem cerca de 500 metros de extensão. Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que o projeto de bolsão de estacionamento “será implantado inicialmente de forma experimental em somente um trecho sob o viaduto para avaliação de viabilidade” e disse que a ciclovia “será mantida com alguns ajustes para adequação à nova geometria”.

Com a mudança, a ciclovia deixará de ter duas faixas, uma para cada sentido, e passará a ter apenas uma, bidirecional e mais estreita.

Além da ciclovia, obra em São Paulo pode afetar outros equipamentos

Abaixo do Minhocão de São Paulo, além da ciclovia, há também passagem de pedestres e pontos de ônibus. Muitos questionam como essas estruturas serão afetadas pela presença do novo estacionamento.

Outra crítica ao projeto é que ele contraria o Plano Diretor da Cidade, que coloca o transporte ativo como um dos pilares da política de mobilidade, que busca tornar a cidade mais amigável para pedestres e ciclistas.

De acordo com um parecer da CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), a colocação das vagas é possível desde que sejam adotadas três medidas: o uso de vagas lineares (e não com inclinação de 45 graus), a alteração da ciclovia para bidirecional e a instalação de gradis nos pontos de curvas para a segurança de ciclistas e pedestres.

A medida é de autoria do vice-prefeito Coronel Mello Araújo (PL), já que o prefeito Ricardo Nunes (MDB) está fora do país em viagem à Ásia. Em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”, Mello disse que “vamos pegar de uma pilastra à outra e ver como funciona. Se der certo, fazemos no Minhocão todo”.

Sobre a remoção das pessoas em situação de rua que se abrigam no local – uma das grandes críticas à obra -, Mello se limitou a dizer que a Prefeitura oferece albergues gratuitos a essa população.

Os vereadores Nabil Bonduki (PT) e Renata Falzoni (PSB) entraram com Ação Popular na Justiça para tentar barrar o projeto.

“A avenida Amaral Gurgel já fica congestionada todo final de tarde, imagine então com o estacionamento de veículos que terão de cruzar o corredor de ônibus para manobrar. Será o caos!”, escreveu Bonduki no Instagram.

Manifestações contrárias

Diversos políticos e entidades se manifestaram a respeito da obra.

“ Trata-se de uma mudança que compromete a mobilidade urbana e penaliza a população. Seguindo a mesma lógica do governador Tarcísio de Freitas, Melo Araújo resolveu adotar medidas que intensificam os problemas no trânsito da cidade e, ao mesmo tempo, promovem uma espécie de ‘higienização’ da área central, atingindo diretamente as pessoas em situação de rua. O foco é esconder a pobreza!”, afirmou no X, o deputado federal Carlos Zarattini.

“Pra colocar ciclovia? Audiência pública, consulta pública, muita burocracia e, mesmo aprovando tudo, nada sai. Pra tirar ciclovia, uma canetada do vice-prefeito serve. Sem consulta pública e contrariando os preceitos de uma cidade que busca a sustentabilidade que é não priorizar o uso do automóvel”, afirmou em vídeo no Instagram Renata Falzoni, vereadora da capital.

Comentando um post de Renata, Daniel Guth, especialista em mobilidade urbana, disse: “O gerente da CET pede, no processo, manifestação da SPTrans sobre os impactos nos ônibus e, até agora, a SPTrans não se manifestou e, mesmo assim, o vice-prefeito pressionou pra sair rápido do papel”.

A Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) publicou nota de repúdio em suas redes sociais.

“A medida, anunciada como um ‘teste’ para ‘reduzir o acúmulo de lixo’ e ‘afastar a população em situação de rua’ representa uma política carrocrata, higienista e contra a mobilidade ativa. Uma forma de alocação de recursos públicos para mais espaço a carros, com expulsão da população em situação de rua e sem prever políticas de acolhimento”, diz o texto.

A entidade também classifica a ação como uma “inversão de prioridades”. Um protesto de ciclistas contra a obra está marcado para esta terça-feira 29, às 20h.