
Até que demorou para as montadoras de veículos instaladas no país apresentarem os primeiros reflexos do atraso das regras do programa Mover em suas operações locais.
Na terça-feira, 8, o atual presidente da Anfavea, Marcio de Lima Leite, afirmou que as fabricantes estão revendo os seus investimentos anunciados para a região por causa da ausência de regulamentação.
O que representa um certo baque para o setor e, também, para o Governo Federal – vale lembrar que os investimentos conjuntos anunciados na esteira do Mover, R$ 65 bilhões, motivaram efusivos festejos nas fábricas e em Brasília (DF).
Montadoras voltam a reclamar da previsibilidade
O programa Mover foi sancionado como política industrial em junho do ano passado com promessa de criação de suas regras nos meses seguintes, o que não ocorreu e incomoda as fabricantes.
“Não temos os números, mas as montadoras já estão revendo os seus investimentos no região. Falta previsibilidade”, disse o presidente da Anfavea durante divulgação de balanço do setor.
Ainda que a entidade tenha vindo a público pela primeira vez para reclamar a falta de regulamentação, não informou, contudo, o que estaria atrasando o processo.
“Está nas mãos da Fazenda”, se limitou a dizer o presidente da Anfavea em sua última coletiva de imprensa à frente da entidade.
Não está claro, contudo, se falta consenso entre as fabricantes de veículos sobre pontos da regulamentação, como critérios para concessão do IPI Verde ou temas ligados à reciclagem dos modelos produzidos no país.
O fato é que a reclamação das montadoras representa um primeiro entreveiro entre fabricantes e governo, que viveram período de lua de mel à época do anúncio dos investimentos, em 2024.
A relação está longe de estar abalada em suas estruturas, a julgar pelo tom do discurso da Anfavea a respeito dos temas que lhe incomodam. A parceria ainda é amistosa.
Mas não há como negar que cresce a lista de entraves cujas resoluções passam pela caneta do poder público.
Se soma a ela, além da falta de regulamentação do Mover, outros assuntos correlatos aos investimentos, ou à falta deles.
Ociosidade das fábricas mexicanas preocupam
Um exemplo disso é uma eventual capacidade ociosa que poderá surgir nas indústrias automotivas de mercados afetados pelo tarifaço de Donald Trump, como o México.
A lógica da Anfavea é a seguinte: uma vez que o México venha a perder volume de produção em suas fábricas por causa do protecionismo dos Estados Unidos, as matrizes das montadoras terão de ocupá-la de alguma forma.
Isso porque o México, assim como Coreia do Sul, Japão e China e outros afetados pelo tarifaço, são vistos como países onde a produção de veículos é mais competitiva do que a realizada na América do Sul, em termos fiscais e de custo.
“O bolso [das montadoras] é um só. O acionista vai destinar os investimentos para onde é mais viável o retorno”, disse o presidente da Anfavea, expondo um temor de que os investimentos anunciados para o Brasil migrem para outros lados.
Passa a figurar também na lista de imbróglios um pedido que estaria sendo negociando pelos corredores da capital federal.
Redução do imposto para CKD é visto como ameaça
Sem mencionar quem estaria por trás de tais conversas na surdina, o presidente da Anfavea revelou que interlocutores pedem a redução do imposto de importação de partes e peças para produção CKD realizada no país.
Fontes ligadas à indústria ouvidas pela reportagem disseram, em off, que o pedido partiu da montadora BYD em reunião na Câmara de Comércio Exterior (Camex).
A fabricante tem planos de iniciar produção em Camaçari (BA) por meio de kits de peças importadas da China antes de produzir veículos com conteúdo local.
A reportagem procurou a fabricante e aguarda um posicionamento a respeito do tema.
“Essa medida, se passar, vai afetar a produção de veículos nacional, ameaçando fuga de investimentos e redução do emprego”, disse Leite. O clima é quente.
