
Helsinque é a capital e a maior cidade da Finlândia, localizada na costa sul do país. Tem cerca de 660 mil habitantes (mais de 1,5 milhão de pessoas se você contar toda a região metropolitana) e é conhecida pela arquitetura moderna, pelo clima frio e por ser um hub de startups e empresas de tecnologia.
No fim de julho, Helsinque completou 12 meses sem uma única morte causada pelo trânsito — a última fatalidade aconteceu em julho de 2024.
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É um contraste violento com as capitais brasileiras. São Paulo (SP), por exemplo, teve 1.031 mortes no trânsito em 2024 (segundo o Detran-SP). O Rio de Janeiro (RJ) teve 706 mortes no ano (segundo o Mapa da Segurança Pública 2025).
De acordo com o Painel CNT de Acidentes Rodoviários de 2024, o Brasil registrou 73.114 acidentes de trânsito em todo o ano de 2024, com 6.153 vidas perdidas, média de 16 mortes por dia. Além de um impacto econômico superior a R$ 16 bilhões.
Mortes no trânsito de Helsinque contrastam com as da UE
É claro que é injusto, quase anacrônico, comparar uma das cidades com maior qualidade de vida do mundo às capitais brasileiras, que vivem outra realidade. Mas o recorde de Helsinque contrasta até mesmo com a União Europeia, que teve 20.418 mortes no trânsito em 2023.
A França, que tem cerca de seis vezes a população da cidade de São Paulo, apresentou os piores números, com 3.167 fatalidades no ano retrasado.
Fomos atrás do que a cidade buscou para obter um recorde tão expressivo. Isto é o que Helsinque fez para reduzir drasticamente as mortes no trânsito:
1. Diminuição dos limites de velocidade

Mais da metade das ruas de Helsinque tem limite de velocidade de 30 km/h desde 2004. Este ano, mais áreas foram incluídas nessa regra, especialmente as próximas a escolas.
É preciso frisar que, antes desse limite ser estabelecido, as mortes no trânsito de Helsinque já eram poucas. Não chegavam a 20 por ano, algo que se deve principalmente aos fatores que iremos apresentar a seguir, como o planejamento urbano e a oferta de transporte público.
No entanto, no período em que a lei esteve presente, cresceram tanto o número de carros quanto a população, mas o número de fatalidades não acompanhou esse aumento — em vez disso, fez o movimento contrário.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que cada aumento de 5% na velocidade média leva a um aumento de cerca de 10% nas chances de colisões com lesões e de 20%, nas colisões fatais.
A recomendação do órgão é um limite de 30 km/h para vias locais, de até 50 km/h para vias com cruzamentos e de até 70 km/h para vias em que há risco de colisão frontal entre veículos.
Recentemente, o governo brasileiro voltou a propor uma redução de 30 km/h para as vias urbanas. Em 2021, Automotive Business entrevistou especialistas para saber como essa redução poderia beneficiar as ruas brasileiras.
2. Estímulo à bicicleta e adaptação das vias

Apenas diminuir a velocidade não bastaria: era preciso também mudar a cidade como um todo. Novas estruturas para pedestres e ciclistas foram adicionadas, com a capital da Finlândia atualmente com 1.500 km de ciclovias.
Essas vias conectam pontos importantes, como centros comerciais, parques e áreas turísticas, e muitas são separadas fisicamente do tráfego — um ponto importante para atrair novos ciclistas.
Há 460 estações para bicicletas na cidade, onde é possível alugar os veículos com facilidade e a preços baixos entre os meses de abril e outubro (época de temperaturas elevadas). Cerca de 70% da população hoje tem bicicleta e a ideia do governo é que, até 2030, 20% de todas as viagens sejam feitas com as magrelas.
“O ciclismo e a infraestrutura otimizada para bicicletas são parte de uma abordagem holística onde o uso da bicicleta não compete com as caminhadas ou o transporte público, e sim o complementa”, afirmou Oskari Kaupinmäki, coordenador de ciclismo da cidade, em 2024.
Outras medidas adotadas foram a colocação de câmeras de monitoramento, o estreitamento de ruas e o plantio de árvores para forçar os motoristas a guiarem com mais cuidado.
A polícia também tem o direito de fazer testes aleatórios de intoxicação por álcool ou drogas nos motoristas, e todos os casos de fatalidades no trânsito são investigados, algo que não acontece em muitos países.
O fato de a caminhada ser o principal meio de transporte em Helsinque, com 47% dos moradores optando por andar a pé, é um testemunho de como as ruas são seguras e fáceis de percorrer.
3. Transporte público amplo, confortável e seguro

Todo ano, a consultoria Oliver Wyman publica o ranking das cidades com o melhor transporte público no mundo. Atualmente, Helsinque está em 11o lugar. São Francisco (EUA) lidera a lista, enquanto a cidade brasileira melhor colocada é São Paulo, em 49o lugar.
Em 2024, a pesquisa BEST (Benchmarking in European Service of Public Transport) apontou Helsinque como dona do quarto melhor sistema de transporte público da Europa, atrás apenas de Turku e Tampere (outras duas cidades da Finlândia), e de Genebra, na Suíça. Segundo esse estudo, 75% dos usuários disseram estar satisfeitos com o sistema.
O sistema de transporte público é composto de ônibus, metrô, trólebus e balsas — todos podem ser acessados com o mesmo bilhete, o cartão HSL, que é recarregável por app. Por meio do aplicativo e do site oficial, é possível planejar as viagens com os diferentes modais, inclusive as bicicletas, que são de um programa do governo e podem ser alugadas.
Além de eficiente, o sistema fica mais limpo: a cidade tem a meta ousada de ter as emissões de seu transporte público zeradas até 2035.
Para isso, Helsinque tem um plano de eletrificação sua frota de ônibus (serão 30% do total até o fim deste ano) e investe em infraestrutura, como a construção de pontes e vias exclusivas para transporte público. Um exemplo são as Pontes Crown, que conectarão a ilha de Laajasalo ao centro da cidade por meio de bondes elétricos.
4. Uso de dados no planejamento do sistema

A cidade tem instalado câmeras e sensores em suas vias para coletar dados importantes no planejamento. Boa parte do plano atual, que foi criado para o ciclo 2022-2026, tem base nesses dados.
Ônibus, bondes e trens contam com sensores GPS para monitorar fluxos de passageiros e veículos. Esses dados permitem ajustar horários, rotas e frequência dos serviços conforme a demanda.
Apps como o HSL agregam informações sobre transporte público em tempo real, o que permite identificar quais rotas são mais utilizadas, onde há congestionamentos e quais horários exigem reforço de veículos.
Antes de implementar novas medidas, como faixas exclusivas, a cidade usa modelos preditivos para antever o impacto e, após a implementação, coleta os dados para analisar o efeito real. Isso permite tomar decisões com base em evidências.
5. O plano Visão Zero

No início dos anos 2000, a Finlândia adotou a estratégia de segurança viária “Visão Zero”, orientada por uma meta extremamente ambiciosa: eliminar todas as mortes e lesões graves no trânsito até 2050.
Nas palavras do jornal britânico “The Guardian”, os princípios e políticas do projeto “transferem a responsabilidade pelos acidentes de trânsito dos usuários das vias para os projetistas do sistema viário”.
Todas as mudanças que comentamos anteriormente fazem parte desse projeto:
- Redução de limites de velocidade
- Criação de faixas exclusivas para pedestres e ciclistas
- Instalação de passarelas elevadas
- Infraestrutura de transporte público eficiente
- Promoção do uso de transporte público
- Campanhas de conscientização
- Aumento da fiscalização para garantir o cumprimento das leis de trânsito
- Análise detalhada de acidentes para identificar causas e prevenir ocorrências futuras
- Realização de blitzes aleatórias para detectar uso de álcool e drogas
E deu certo: assim como as mortes no trânsito, os acidentes caem ano a ano em Helsinque. Em 2024, houve apenas 14 sinistros e quatro mortes (anteriores a julho).