
A nova marca da Stellantis começou a atuar no Brasil de forma bem cirúrgica. Além de marretar a ideia de que é uma chinesa com tempo de estrada no Brasil, a Leapmotor de cara focou na versão do C10 com autonomia estendida.
Desta forma, a marca estreante tenta passar tranquilidade para o mercado em três frentes: confirmação de produção no Brasil, investimento em pós-venda e a não dependência de uma infraestrutura de recarga que ainda é o calcanhar-de-aquiles do carro elétrico.
Nós tivemos a oportunidade de avaliar bem essa terceira frente. Automotive Business avaliou o Leapmotor C10 com autonomia estendida por 15 dias e vivenciou como é ter o chamado ultra-híbrido.
Neste sistema chamado de REEV, um motor de combustão queima gasolina para alimentar a bateria do elétrico que, por sua vez, é o responsável por tracionar as rodas. Recurso que não tem nada de revolucionário, já que Chevrolet Volt e BMW i3 já se valiam disso nos anos 2010.
Vamos agora destacar como foi essa experiência ao volante do Leapmotor C10 com autonomia estendida em sete tópicos principais.
Desempenho do Leapmotor C10 com autonomia estendida

Retirei o C10 ultra-híbrido – por força de legislação, o carro não pode ser chamado de elétrico – em uma calorenta tarde do pré-verão carioca. Assim que entrei no SUV, ainda na concessionária, uma desagradável surpresa.
Olho para o quadro de instrumentos eletrônico e a luzinha amarela sinaliza que o tanque de combustível está na reserva. Ao lado, a bateria do motor elétrico indica menos de 50 km de autonomia.
Mas é hora de fazer uma limonada a partir do limão. Como não tenho carregador no prédio onde resido e a região onde moro no Rio é carente de pontos de recarga, assumo o desafio de só abastecer e garantir o motor elétrico na base da gasolina.
Completo o tanque de 50 litros sob o olhar incrédulo do frentista – “pensei que fosse um elétrico”, murmurou para o colega. Na central multimídia com tela de 14” seleciono o modo Power+, que prioriza a recarga da bateria a partir da queima de gasolina.
Na cabine, percebe-se a vibração leve e o barulho discreto do motor 1.5 de 85 cv. Mas a tocada é como em um elétrico. São 215 cv de potência, mas na opção “Conforto” o Leapmotor C10 é suave nas acelerações.
As respostas ao pedal são imediatas, mas sem aquelas acelerações bruscas. Mesmo no modo “Esporte”, a condução privilegia um desempenho mais gradual e confortável. Segundo a Leap, o C10 REEV faz o 0 a 100 km/h em 8,2 segundos.
Sem medo da estrada

Enquanto isso, o motor a gasolina cumpre o seu papel. Ainda em “Power+”, o alcance da bateria aumenta gradativamente e em menos de 40 minutos no tráfego urbano passa daqueles menos de 50 km para 70 km.
Dias depois, não carregamos a bateria, mas durante o recesso de fim de ano fomos recarregar as baterias pessoais em Vassouras, no Vale do Café fluminense, cidade distante 120 km do Rio. Foram 2h de viagem, entre estradas de alta velocidade e trechos de subida de serra.
Neste período, continuei a otimizar a recarga da bateria a partir do propulsor de combustão. Na central multimídia, é possível ajustar o mínimo e o máximo de carga que se deseja para dirigir com segurança e sem sustos.
Cheguei em Vassouras com a bateria já perto dos 90 km. Pelo padrão do PBEV/Inmetro, o alcance em modo elétrico do Leapmotor C10 é de 110 km, mas a autonomia estendida, pelo otimista ciclo europeu WLTP, é de 950 km.
Posso dizer que foi a primeira vez que viajei com um carro elétrico sem aquela apreensão e tensão, e sem dosar o pé do acelerador para poupar bateria. Tanto na ida, quanto na volta.
De volta ao Rio, aproveitei uma ida ao cinema e no eletroposto do shopping deixei o C10 no aparelho de recarga rápida. Pelo aplicativo, em 37 minutos a carga foi completa.
Dinâmica chama a atenção

Ao se deparar com esse galipão de 4,73 metros, 1,90 m de largura e 1,68 m de altura, logo vem à mente um SUV confortável, porém desengonçado. Mas o Leapmotor C10 com autonomia estendida é uma grata surpresa nesse sentido.
Obviamente você sente o peso da carroceria, que torce dentro da normalidade nas curvas. Mesmo assim, ao contrário de outros SUVs médios e grandes chineses, o C10 é bem mais comportado e direto.
A direção aponta bem e é obediente, mesmo em altas velocidades permitidas na estrada. O C10 não passa sinais de flutuação e em curvas mais fechadas não prega sustos.
Nada como ter o guarda-chuva da Stellantis e aquela exagerada ideia de uma marca chinesa com 50 anos de experiência no Brasil. A engenharia local deu um trato e tanto na dinâmica do C10.
Espaço e conforto

É o grande trunfo do Leapmotor C10. O que não falta é espaço a bordo do SUV e seus 2,82 metros de entre-eixos. Na frente, motorista e carona ficam muito à vontade e a posição de dirigir agrada a maior parte do tempo.
O motorista tem uma boa visão de tudo que ocorre à volta, volante com boa angulação, console central elevado e ajustes elétricos do banco (o do passageiro também). A direção é que poderia ter uma pegada melhor.
O material usado nos bancos é bastante macio e confortável, e acomoda bem. Quanto aos dianteiros, é possível deitá-los quase que totalmente e ativar o “modo soneca” na multimídia e reproduzir sons do mar, lareira e até da roça.
No banco traseiro é possível inclinar o encosto e sobrra espaço para pernas, joelhos e pés ds ocupantes. Tranquilamente, o assento acomoda três adultos de variadas estaturas.
O porta-malas (com abertura motorizada) e seus 435 litros não chega a ser um latifúndio, mas na viagem consegui acomodar quatro malas pequenas mais duas bolsas e uma mochila. Nada mal.
A suspensão segue o acerto Stellantis e lida bem com os buracos. Apesar dos 18 cm de vão livre do solo, o Leap C10 não sacoleja tanto em quebra-molas e imperfeições da pista. O isolamento acústico também agrada.
Na parte de acabamento, a cabine do C10 tem visual clean, mas abusa dos materiais emborrachados bastante agradáveis ao toque. Os discretos detalhes em metal escovado dão um tom de requinte bastante elegante.
Contradições do minimalismo

Esse ambiente condiz com aquela proposta minimalista meio irritante dos carros elétricos chineses. O C10 segue essa cartilha com a concentração da maioria dos comandos na central multimídia.
Dizem que é o que as novas gerações querem, mas o 50+ que vos escreve acha perda de tempo ter de mexer na tela para ajeitar o fluxo do ar-condicionado ou os espelhos retrovisores.
Fora o fato que essa mesma central multimídia tem uma navegação ruim e pouco intuitiva. E ainda carece de conexão com Android Auto e Apple CarPlay, algo que deve ficar para esse ano – mas meio imperdoável para uma marca que se preparou quase um ano para começar a operar no Brasil.
E tem as contradições do minimalismo. A Leap oferece o app para diversas funções do carro. Se o celular der pau, é preciso usar um cartão, só que ele não tem sensor de presença.
Desta forma, para abrir e fechar as portas é preciso pegar o cartão e aproximar de uma área sinalizada na capa do retrovisor do lado do motorista – no do carona não tem.
Aí, vem a maçaneta embutida, que fica muito bonita, deixa a lateral limpinha, mas é preciso pressionar a ponta da peça para fazer aquela alavanca. Um processo pouco prático quando se está com as mãos ocupadas com sacolas, por exemplo.
Para acionar o motor elétrico também é preciso do cartão, que deve ser pousado no carregador de celular por indução. Aí, basta pisar no freio e acionar a discreta e mal posicionada alavanca do câmbio para “D”.
Pós-venda e manutenção

Além do papo de reforçar que a Leapmotor faz parte do mesmo grupo de Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram – amparado por anúncios na mídia, em painéis no aeroporto e totens gigantes nas concessionárias -, a Stellantis também tentou bolar um pós-venda atraente para o C10.
O Leapmotor C10 com autonomia estendida é vendido com um plano de revisões fechado até 30 mil km (ou três anos). Os preços ficam em R$ 751 na primeira, R$ 1.182 na segunda e R$ 751, na terceira manutenção.
A garantia é de quatro anos, podendo chegar a seis com o programa Leap+. A marca começou as operações com 36 concessionárias em 29 cidades do país.
Posicionamento e vendas

O Leapmotor C10 com autonomia estendida já ficou mais caro. Ele foi lançado no começo de novembro por R$ 199.990, e agora já custa R$ 219.990.
Ainda é um preço competitivo, tanto pela tecnologia diferente para um carro elétrico quanto pela lista de equipamentos.
Só no pacote ADAS é dotado de quatro câmeras de visão periférica, uma câmera monocular na frente, quatro radares ultrassônicos, dois radares de ondas milimétricas. Ainda tem a câmera que monitora o motorista.
Este aparato faz funcionar o kit de assistência à condução que inclui controle de cruzeiro adaptativo, detecção de colisão com frenagem autônoma, alerta de colisão traseira e alerta de tráfego cruzado com frenagem.
Tem ainda alerta de ponto cego, assistente ativo de centralização e correção de faixa, detecção de mão no volante, alerta de abertura de porta e alerta de fadiga do condutor.
O recheio inclui sete airbags (um central dianteiro), câmera 360, controles de descidas e subidas, retrovisores com aquecimento e rebatíveis eletricamente, carregador de celular por indução, bancos dianteiros com ajustes elétricos, ventilação (muito útil no impiedoso verão carioca) e aquecimento.
Ainda vem com som com 12 alto-falantes e o bacana teto panorâmico Sky View, com 2,1 m², que vai praticamente da coluna dianteira até a traseira.
Desta forma, o Leap C10 REEV fica bem posicionado. Ele custa o mesmo que versões topo de linha de SUVs médios a combustão, como Renault Boreal, Jeep Compass e Toyota Corolla Cross. E é mais barato que híbridos chineses, como BYD Song Plus ou GWM Haval H6, ou mesmo que o elétrico BYD Yuan Plus.
Em dezembro, primeiro mês cheio de vendas, o C10 teve 431 unidades emplacadas. Cerca de 80% foram da versão ultra-híbrida.
