
Entre grandes promessas e polêmicas, a BYD inaugurou nesta terça-feira, 1, a fábrica de Camaçari (BA), que promete ser o maior polo industrial da montadora fora da China. Por aqui, o sistema de produção será aquele realizado por meio de kits de peças importadas, o chamado SKD.
O investimento feito na unidade é de R$ 5,5 bilhões em uma gigantesca estrutura de 4,6 milhões de metros quadrados, o equivalente a 645 campos de futebol.
Inicialmente a fabricante promete produção anual de 150 mil veículos, com promessa de aumento gradativo até chegar a impressionantes 600 mil/ano até 2030.
Serão montados pela BYD aqui o subcompacto elétrico Dolphin Mini, o SUV híbrido Song Pro (nas versões GL/GS) e o sedã híbrido King (GL/GS) — novidade anunciada com exclusividade na inauguração da fábrica da Bahia.
“O Brasil será o único nas Américas a receber a nossa tecnologia de carregamento ultrarrápido. Esse será o maior polo da BYD fora da China. Com investimento e pesquisa, queremos que a Bahia seja o Vale do Silício da América do Sul”, disse a vice-presidente da BYD global, Stella Li.
No evento, inclusive, foram apresentados os primeiros BYD Dolphin Mini e Song Pro feitos como teste na fábrica da Bahia. A planta entra em operação para valer nas próximas semanas, após receber o aval dos bombeiros e a licença ambiental.
Fábrica da BYD na Bahia inicia em SKD
No esquema SKD, itens importantes como câmbio, motor e carroceria desembarcam no país parcialmente montados, cabendo ao quadro da fábrica brasileira realizar o processo de montagem final.
Este processo, inclusive, é considerado o mais indicado para empresas que iniciam operações visando um volume baixo de produção, uma vez que demanda um aporte menor em máquinas e equipamentos mais robustos como robôs de pintura, de armação de cabine por meio de solda e, claro, prensas.
O esquema SKD não desfruta de uma tributação diferenciada, ou seja, paga a mesma cesta de impostos que outras montadoras, digamos, com uma linha de produção mais completa, pagam. A BYD, inclusive, tentou reverter isso, sem sucesso.
A produção de veículos feita com maior número de componentes locais e processos de fabricação em solo brasileiro, sim, desfruta de benefícios fiscais criados justamente para se estimular a industrialização nacional.
A BYD sabe disso e, portanto, pretende aumentar a sua produção local e, também, o conteúdo nacional dos seus veículos Made in Brazil.
Até o fim do ano, serão produzidas 50 mil unidades nesse sistema SKD, segundo a montadora. Para os próximos anos, contudo, planeja nacionalizar toda a produção, sendo ela mesma a responsável pela fabricação de alguns componentes.
Há também intenções de atrair para dentro do polo industrial fornecedores nacionais e, também, estrangeiros. O primeiro passo para isso foi o anúncio da parceria com a Continental no fornecimento de pneus.
“Certamente o SKD marca a transição de importação para a fabricação no Brasil. O prazo é de 12 meses no regime SKD, passado esse período, vamos investir na expansão do polo para começar a nacionalizar a produção em 2026”, disse o vice-presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy.
A montadora também promete gerar 20 mil empregos diretos e indiretos na unidade de Camaçari. Durante o evento, foi anunciada a abertura de 3,5 mil postos de trabalho que devem ser preenchidos até o fim do ano.
BYD é contagiada pela brasilidade
A fábrica da BYD estava em clima de festa. A montadora chinesa não mediu esforços para mostrar que pode ter um jeitinho brasileiro.
Para aproximar as duas culturas tão diferentes, centenas de jornalistas e convidados foram recebidos com forró ao vivo, com músicas de Luiz Gonzaga, Alceu Valença e Falamansa.
Por toda a fábrica, o slogan “A BYD é do Brasil” estampava as paredes e fitinhas do Senhor do Bonfim ganharam uma versão especial da BYD nas cores da bandeira do Brasil. Elas foram espalhadas para enfeitar a fábrica e entregues como brinde aos presentes.
Vale lembrar que entre eles não esteve o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, figura que marcou presença nos últimos grandes anúncios do setor automotivo, como a assinatura do decreto do Programa Mobilidade Verde (Mover). No mesmo dia, participou do lançamento do Plano Safra.
Construção da fábrica teve casos de trabalho escravo
A fábrica inaugurada na terça-feira teve diversos adiamentos e atrasos. Um dos motivos foram as obras embargadas em 2024, após o Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatar 220 trabalhadores chineses em condições de trabalho análogo à escravidão no canteiro de obras.
Eles prestavam serviços para duas empreiteiras chinesas contradas pela BYD. Os trabalhadores entraram no país com visto de trabalho irregular, tinham jornadas de trabalho excessivas e condições desumanas de alimentação e alojamento.
No mês passado, o MPT abriu um processo contra a montadora e pede R$ 257 milhões de indenização por danos morais coletivos.
Após o caso, a BYD rompeu o contrato com as empreiteiras chinesas JinJiang e Tonghe e contratou uma empresa brasileira.
“A BYD foi parte da solução daquele triste episódio. Nós fizemos tudo para corrigir onde não estava sendo cumprida a legislação. Temos o compromisso inegociável de cumprir a legislação, de trabalho brasileira e garantir que as condições humanas sejam respeitadas”, afirmou Baldy.