
No setor automotivo, apenas 9,4% dos profissionais são LGBTQIA+ e, na liderança, essa presença cai para 1%, segundo a nova pesquisa Diversidade e ESG no Setor Automotivo 2026, de Automotive Business e MHD Consultoria.
Apesar dos desafios, o setor tem avançado rapidamente na construção de ambientes mais inclusivos nos últimos anos. Hoje, 75% dos profissionais LGBTQIA+ afirmam se sentir à vontade para ser quem são no ambiente de trabalho — um indicador de pertencimento que impacta diretamente o bem-estar, a confiança e o desenvolvimento profissional.
Os relatos a seguir mostram como poder trabalhar sem esconder a própria identidade pode transformar trajetórias. Para dar visibilidade a quem ajuda a construir um setor mais diverso e representativo, reunimos 7 profissionais inspiradores para você conhecer.
Alison Frasson – Nissan

Atual gerente de engenharia de desenvolvimento de produto da Nissan, Alison Frasson desde criança tinha facilidade para desmontar e consertar aparelhos eletrônicos, e a curiosidade naturalmente o levou à profissão.
Há 12 anos, entrou na montadora como engenheiro júnior e construiu sua trajetória sólida até a posição de gestão que ocupa hoje. Durante dois anos, liderou o grupo de afinidade LGBTQIA+ dentro da Nissan.
Sua trajetória profissional se entrelaça com experiências pessoais. Para ele, conseguir um bom emprego e ter independência financeira significou mais do que estabilidade, “foi a possibilidade de viver minha identidade com liberdade”, afirmou ele.
Crescido em uma cidade pequena do interior de São Paulo, por muitos anos, ali ele precisou reprimir quem era — esconder a primeira paixão, controlar trejeitos, vigiar a voz, limitar minha expressão e criatividade.
“A carreira me proporcionou essa liberdade e transformou aquilo que um dia foi motivo de vergonha para minha família em motivo de orgulho”, disse. “Hoje, acredito que minha trajetória foi construída não apenas apesar do preconceito, mas também pela capacidade de transformá-lo em propósito.”
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Poder ser quem eu sou no ambiente de trabalho significa direcionar minha energia para criar, colaborar e inovar, em vez de gastá-la escondendo partes da minha identidade”, disse Alisson. “A autenticidade me deu confiança para expressar uma das minhas maiores fortalezas: a criatividade. Quando deixei de me preocupar em corresponder às expectativas que não refletiam quem eu era, consegui contribuir de forma mais genuína, propor soluções diferentes e desempenhar um trabalho que vem sendo reconhecido.”
“Para mim, um ambiente inclusivo não apenas acolhe as pessoas — ele potencializa talentos. Quando nos sentimos seguros para sermos autênticos, entregamos o nosso melhor, tanto para o time quanto para a empresa”, completou.
Guilherme Nascimento – Volkswagen

Atualmente supervisor técnico de diversidade e inclusão na Volkswagen do Brasil. Guilherme tem mais de 20 anos de trajetória na indústria automotiva. Ele começou sua carreira como montador na fábrica da VW e ao longo dos anos expandiu sua atuação para áreas estratégicas, como manufatura, controladoria, presidência, RH e cultura organizacional, chegando à liderança corporativa.
Hoje lidera iniciativas estruturantes de governança em diversidade e inclusão, cultura e clima organizacional, com foco em segurança psicológica, transformação cultural, comunicação inclusiva, desenvolvimento de lideranças, ESG e fortalecimento da experiência das pessoas.
Entre seus projetos mais relevantes estão: a estruturação e consolidação dos grupos de afinidade da VW; a estruturação do primeiro programa de trainee afirmativo da empresa; liderou o primeiro censo de diversidade e inclusão na VW do Brasil; além da evolução de estratégias de escuta organizacional e clima.
Além disso, é palestrante e é palestrante e defensor de modelos de liderança mais conscientes, humanos e inclusivos. Sua visão estratégica se baseia em conceito autoral denominado “5 Cs da Governança em DEI”, na qual defende que transformações culturais sustentáveis exigem Coragem, Compromisso, Competência, Constância e Coerência.
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Para mim, poder ser quem eu sou no ambiente de trabalho significa não precisar escolher entre os meus valores e os meus resultados. É ter a liberdade de liderar com autenticidade. Acredito que quando as pessoas se sentem seguras para serem elas mesmas, sem deixar um pedaço delas do portão da empresa para fora, elas se conectam mais com o propósito, entregam seu melhor, inovam e prosperam. É isso que busco promover todos os dias: um ambiente onde cada pessoa se sinta pertencente, valorizada e inspirada a crescer junto com o negócio”, disse Guilherme.
Marília Muñoz – TE Connectivity

Marília Muñoz começou sua carreira como estagiária na TE Connectivity, em 2018, e atualmente é analista pleno de contas a receber, atuando na área financeira de operações na América do Sul.
Além disso, ela lidera iniciativas de diversidade e inclusão, como o grupo de afinidade LGBTQIA+ e o Co-Chair do ALIGN Americas. Nos últimos anos, teve a oportunidade de contribuir com a expansão dessas iniciativas para diferentes países.
Sua trajetória profissional está muito entrelaçada com sua evolução pessoal. Isso porque, quando entrou na empresa, aos 20 anos, ainda estava descobrindo sua sexualidade e não se sentia confortável para falar desse tema.
“Encontrar um ambiente onde pude construir minha carreira sem precisar esconder quem eu era teve um impacto profundo na minha vida e reforçou a importância da representatividade no ambiente corporativo”, afirmou ela. “Acredito que inclusão vai além da contratação: ela acontece quando todos têm oportunidades reais de crescer, se desenvolver e alcançar seu potencial sendo autênticos.”
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Poder ser quem eu sou no ambiente de trabalho significa poder direcionar minha energia para aquilo que realmente importa: aprender, colaborar, inovar e crescer”, afirmou Marília. “Quando uma pessoa não precisa esconder parte da sua identidade, ela trabalha com mais confiança, constrói relações mais genuínas e consegue desenvolver todo o seu potencial. Para mim, pertencimento é exatamente isso: não precisar escolher entre ser quem sou e construir a carreira que sempre sonhei.”
Leandro Nascimento – Bosch

Há 9 anos na Bosch, Leandro Nascimento atualmente é especialista em sistemas de informações ERP. Ele começou sua carreira como estagiário da empresa em 2007. Após dez anos acumulando experiências profissionais em outras empresas, voltou em 2017 como analista de segurança.
No começo da carreira, Leandro não se sentia preparado para falar sobre ser um homem gay, na área de TI dentro do setor automotivo. Mas quando voltou à Bosch anos depois, a gestora que o contratou na época, junto ao RH e a alta gestão, tomaram providências para que o ambiente fosse seguro e confortável para um profissional LGBTQIA+.
“Nunca me senti discriminado, mas aquelas “piadas” sempre vinham e sempre respondia a esses comentários de uma forma que pudesse esclarecer a bobagem que estava sendo dita”, contou.
O profissional fez parte da criação do grupo de afinidade LGBQTIA+ da empresa e fez parte do marco de ser a primeira planta da Bosch a hastear a bandeira do Orgulho todo mês de junho.
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Ser quem sou e poder falar sobre isso abertamente e com segurança no trabalho é superimportante, me sinto confiante para poder agir como o profissional que sou, sem medo de ser mal interpretado ou julgado”, disse Leandro. “Tive progressão de carreira desde que entrei e sinto que minhas oportunidades de crescimento não são afetadas. Uma pessoa não LGBTQIA+ lê isso e pensa, “mas isso não é o mínimo?” Sim, é o mínimo. Mas ninguém sabe como é importante eu chegar num café da empresa e poder falar que viajei com meu maridO, ou falar de trivialidades sem medo de citar que sou casado com outro homem. Pessoas heterossexuais falam isso sem medo, mas essa trivialidade não é comum para a maioria de pessoas LGBTQIA+ em diversos espaços.”
Luiz Cursino – Ford

Luiz Cursino é graduado em Administração de Empresas, com pós-graduação em Gestão de Projetos. Atualmente, é gerente regional de atração de talentos e experiência do colaborador na Ford.
Ao longo de dez anos de carreira, consolidou sua experiência em recursos humanos com foco em recrutamento.
Na Ford, também liderou iniciativas de diversidade, equidade e inclusão, grupos de afinidade e projetos corporativos voltados ao desenvolvimento de talentos e à ampliação da equidade de oportunidades. Sua atuação é focada na construção de processos seletivos mais justos, baseados em competências, e na capacitação de lideranças para mitigar vieses inconscientes e promover decisões mais inclusivas.
Como profissional LGBTQIA+, defende a segurança psicológica como um fator essencial para que as pessoas possam atuar com autenticidade e desenvolver seu potencial no ambiente de trabalho.
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Existe uma correlação direta entre autenticidade, pertencimento e alta performance. Na Ford, senti esse acolhimento e respeito desde o primeiro contato no meu processo seletivo, passando pelo meu onboarding e ao longo de toda a minha jornada por aqui. Quando a pessoa colaboradora se sente segura para ser quem é desde o início, seu engajamento e sua performance atingem o nível máximo”, disse Luiz.
“Permitir que as pessoas trabalhem livres de julgamentos não é uma pauta puramente social; é uma estratégia de negócios indispensável para as organizações que desejam se manter relevantes no mercado”, concluiu.
Tancredo Neris – Cummins

Tancredo Neris é líder de engenharia na Cummins, com mais de 30 anos de experiência em diversas áreas do setor automotivo.
Como um homem transgênero, quando entrou na Cummins ele estava começando a transacionar e ia começar a tomar hormônios. Por isso, se assegurou que a empresa realmente era comprometida com diversidade e inclusão LGBTQIA+ para não correr o risco de passar por nenhuma situação de constrangimento no trabalho.
“Na Cummins, tive todo o acolhimento necessário. Tive apoio da empresa até mesmo para cobrir custos das cirurgias pelo plano de saúde”, afirmou. Para ele, representar a letra T da sigla tem seus desafios, mas também a oportunidade de ampliar a visibilidade e quebrar estereótipos sobre pessoas trans no ambiente corporativo. “Além de mostrar o meu talento profissional, tenho a responsabilidade de mostrar que não sou um extraterrestre, sou um ser humano como qualquer outro”, disse ele.
Tancredo também é palestrante motivacional e educador voluntário, tendo preparado mais de 300 jovens para o mercado de trabalho. Além de líder de projetos de diversidade e inclusão e responsabilidade corporativa, com certificações BPTW em 2022 e 2023 para pessoas LGBTQIA+.
Ele possui formação em Tecnologia da Informação e Engenharia de Produção, com pós-graduação em Administração e especialização em liderança pela Ohio University.
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Ser quem você é no ambiente de trabalho significa ter o direito de exercer, de forma íntegra, todo o seu máximo potencial profissional.”
Vinícius Brassarola – Ford

Atualmente gerente geral de digital e CRM da Ford na América o Sul, Vinicíus Brassola acumula mais de 15 anos de carreira na indústria automotiva, sempre ligado à transformação digital e experiência do cliente.
Construiu sua carreira na Ford passando por diferentes áreas estratégicas da companhia, o que lhe deu uma visão ampla e integrada do negócio. Atuou no braço financeiro da Ford, com marketing, produtos financeiros e precificação. Depois, foi para a Ford Motor onde passou por marketing de varejo e gestão de portfólio de produtos futuros para o Brasil e América do Sul.
Desde 2020, Vinícius lidera o Ford Pride, grupo de afinidade LGBQTIA+ da companhia na América do Sul. “Os grupos de afinidade têm um papel essencial na promoção de um ambiente mais inclusivo, seguro e respeitoso, por meio da educação, da conscientização e do diálogo”, afirmou Vinícius.
“Entre as iniciativas que mais me orgulham está a primeira participação do Ford Pride na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, em 2024, reforçando o compromisso da empresa com a inclusão.”
O que significa para você poder ser quem é no ambiente de trabalho?
“Para mim, poder ser quem eu sou no trabalho significa liberdade para entregar o meu melhor. Quando não preciso gastar energia escondendo parte de quem sou, essa energia se transforma em criatividade, em coragem para propor ideias e em conexões mais verdadeiras com os colegas e clientes”, disse ele.
“Acredito que ambientes onde as pessoas podem ser autênticas são também os mais inovadores — porque a diversidade de vivências gera diversidade de soluções. Construir uma carreira de mais de 15 anos sendo respeitado e valorizado por quem eu sou, e não apesar disso, é algo que não tomo como garantido: é uma conquista coletiva que quero ajudar a ampliar para as próximas gerações.”