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Fiat

10 vezes em que a Fiat foi pioneira no Brasil

Em 50 anos no país, marca italiana trouxe novidades em seus carros e inaugurou segmentos de mercado

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Fernando Miragaya

25 set 2026

12 minutos de leitura

Vários Fiat 147 em pátio da fábrica da marca em Betim em 1976
Vários Fiat 147 em pátio da fábrica da marca em Betim em 1976

Geralmente quem completa 50 anos fala que não está velho, mas sim experiente. De fato, quem já passou de meio século de vida tem (ou deveria ter) história para contar. No caso da Fiat, seu cinquentenário evidencia uma trajetória que mostra uma pegada pioneira que vai além dos carros em si.

Nessa história no país, iniciada em 1976, a marca italiana trouxe novidades não só com produtos considerados revolucionários para a época, mas também em equipamentos e tecnologias. Fora o fato de que a Fiat foi pioneira em alguns dos segmentos mais importantes do mercado brasileiro.

Vamos combinar que até mesmo o estabelecimento da montadora aqui já foi diferente. A Fiat foi pioneira ao montar uma fábrica fora do estado de São Paulo. E, para tal, teve participação acionária do governo de Minas Gerais.

Neste conteúdo vamos detalhar 10 vezes em que a Fiat foi pioneira no Brasil.

Fiat 147 já chegou com pegada pioneira

Fiat 147 ano 1976
O primeiro carro da Fiat produzido no Brasil

O primeiro carro de passeio da marca italiana produzido no Brasil e que inaugurou o Polo Automotivo de Betim (MG) já trouxe inovações em termos de mecânica. Baseado no europeu 127, o Fiat 147 foi o primeiro automóvel nacional com motor posicionado transversalmente.

Hoje, isso parece trivial, mas à época essa solução abria mais espaço na cabine – algo importante no segmento de carros compactos. Além disso, facilitava a vida dos designers automotivos.

Mas o Fiat 147 também honra sua alma pioneira em outros aspectos mecânicos. Foi o primeiro carro no Brasil equipado com pneus radiais, para-brisa laminado e com coluna de direção retrátil, esses dois itens importantes na questão da segurança viária.

O inesquecível Cachacinha

Fiat 147 a álcool 1979
Os primeiros carros de passeio movidos a etanol no mundo

Coube ainda à linha Fiat 147 ser pioneira de forma global. O hatch foi o primeiro veículo de produção em série no mundo com motor movido exclusivamente a álcool.

O carro surgiu em 1979, na esteira do Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool). O projeto instituído pelo governo brasileiro quatro anos antes dava incentivos para a produção de etanol combustível a partir da cana-de-açúcar em meio às Crises do Petróleo que marcaram a década.

A Fiat largou na frente e pegou o motor 1.3 para trabalhar com álcool. A engenharia da fabricante teve de elevar a taxa de compressão de 7,5:1 para 11,2:1, e fez um tratamento antioxidante em peças como tanque, dutos, carburador e bomba de combustível.

Com 62 cv de potência, o Cachacinha – como ficou conhecido o 147 a etanol – também recebeu escapamento específico e o tanquinho auxiliar de gasolina para as partidas a frio. Nos anos seguintes, o que se viu no mercado foi uma avalanche de carros a álcool, que chegaram a representar 95% da produção nacional nos anos 1980.

Picapinhas e suas inovações

Fiat Strada LX
A primeira Strada, líder de mercado desde 2001 e pioneira em várias frentes

Hoje não admira que a marca seja líder disparada de picapes compactas e médio-compactas. Além de pioneira na categoria de picapinhas, a Fiat sempre se adiantou com novidades para este mercado.

Tudo começou em 1978, quando a marca criou a primeira derivação do 147 e a primeira picape derivada de carro de passeio. O nome não tinha nada de original, mas a 147 Pick-up foi uma solução de veículo comercial acessível e prático para a cidade.

A frente era igual à do hatch, a cabine simples transportava duas pessoas, a suspensão traseira era independente com braços oscilantes e sobrava espaço interessante para a caçamba. Ali cabiam até 600 litros de volume e a carga útil chegava a 380 kg.

Essas capacidades aumentaram a partir de 1981, quando a Fiat 147 Pick-up passou a usar a base da station-wagon Panorama e feixe de molas com quatro lâminas na suspensão traseira. A carga útil passou para 500 kg.

Em 1988 a Fiat lançou a Fiorino Pickup, que aproveitava o nome do famoso furgãozinho e usava agora a plataforma do Uno. O ganho de volume foi expressivo em relação à picapinha do 147: 967 litros, enquanto a capacidade de carga chegou a 620 kg.

Mas o carro que consolidou a Fiat no segmento de picapes compactas veio em 1998. Derivada do Palio, a Strada chamou a atenção de cara pelas linhas arredondadas, o maior entre-eixos (2,71 m) e pelo jogo de suspensão herdado da Fiorino: um robusto eixo rígido com molas parabólicas.

Um conjunto, aliado à capacidade de carga de 700 kg e a diversos motores adotados pela Strada ao longo dos anos, que fez da picape o sucesso que ela é até hoje – o veículo mais vendido no país e na América do Sul nos últimos anos.

Mas é importante salientar também a pegada pioneira da Fiat Strada em termos conceituais e em outros detalhes mecânicos. Foi a primeira da categoria a ter cabine estendida, em 1999, e bloqueio eletrônico do diferencial dianteiro (o sistema Locker) no fim dos anos 2000.

Em 2009, a Strada estreou a configuração cabine dupla, algo inédito no segmento, com disposição de bancos extras retráteis. Quatro anos mais tarde, essa derivação da picapinha ainda recebeu uma terceira porta, pelo lado do carona.

A segunda geração da Strada, lançada em 2020, manteve a proposta de robustez. Feita sobre a arquitetura MPP, a picape aumentou em 10% a rigidez torcional, com 90% de uso de aços de alta e ultra resistência em sua base, e ganhou novo eixo traseiro, de acordo com a Fiat.

Nos números, manteve os argumentos para quem precisa da picape para a labuta: 1.354 litros de volume na caçamba e carga útil de até 720 kg – isso na cabine simples. O pioneirismo da nova Strada dentro da categoria, desta vez, veio na configuração cabine dupla com inéditas quatro portas e espaço para até cinco passageiros.

De lá para cá, a picapinha ainda teve mais novidades. Foi a primeira do mercado de compactas a ter câmbio continuamente variável (CVT) – até então só a Chevrolet Chevy 500 tinha tido caixa automática, mas convencional. E a Fiat Strada também foi pioneira ao ser a primeira picapinha com motor turbo flex do mundo, em 2023.

Compacto revolucionário

Fiat Uno Mille
Uno Mille foi pioneiro dos populares

Como dito, o Fiat 147 foi revolucionário em alguns aspectos. Mas não chega às rodas do que o Uno representou para o mercado brasileiro de compactos quando chegou por aqui em 1984, um ano após seu lançamento na Itália.

Desenhado por Giorgetto Giugiaro, o conceito de botinha ortopédica foi uma quebra de paradigmas para o segmento de compactos. Pequeno por fora (3,64 m de comprimento), tinha um espaço interno superior aos rivais como Volkswagen Gol e Chevrolet Chevette.

O Uno ainda se valia de ampla área envidraçada e comandos satélites no painel, o que destacava uma boa ergonomia para o motorista.

Sem falar no porta-malas de 290 litros, maior que o do modelo europeu – especialmente pelo fato de ter estepe posicionado no compartimento do motor. Também diferente do europeu era a suspensão traseira herdada do 147, independente, com braços oscilantes e feixe de molas transversal – para aguentar a buraqueira brasileira.

Outra característica fascinante no Uno e, de certa forma, pioneira para o mercado de compactos, era seu coeficiente aerodinâmico. O formato botinha ortopédica contribuiu para um Cx 0,35 – para se ter ideia, o 147 tinha Cx 0,50.

Ao longo de 40 anos, o Uno teve uma série de versões – algumas muito emblemáticas -, motorizações e inovações. Foi ele que inaugurou a era dos “populares” com motor 1.0 litro na década de 1990, só que o sobrenome Mille grudou e virou sinônimo de carro econômico até o fim.

Mesmo depois da chegada da segunda geração, em 2010, a botinha ortopédica seguiu firme. Só saiu de linha na virada de 2013 e 2014 com mais de 3,6 milhões de unidades produzidas no país.

Turbinado de fábrica

Fiat Uno Turbo
Fiat Uno turbo tinha potência maior que os 2.0 aspirados à época

Coube ainda ao Uno o posto de primeiro automóvel de passeio brasileiro a sair turbinado de fábrica. A nova versão do hatch foi lançada em 1994 com motor 1.3 importado da Itália aliado a um turbo Garrett T2.

O sistema trabalhava com pressão máxima de 0,8 bar e a potência chegava a 118 cv, com 17,5 kgfm de torque. Para se ter ideia, o Chevrolet Monza com motor 2.0 aspirado da época entregava 110 cv.

Para segurar o calor gerado pela turbina, o Uno Turbo foi equipado com resfriador de ar e radiador de óleo. Além disso, o câmbio recebeu novas relações, a direção hidráulica ganhou outra calibragem para ficar mais direta e a suspensão adotou molas mais rígidas.

A carroceria ainda foi rebaixada em 1 cm e a engenharia da Fiat colocou uma barra de amarração entre a parte superior das colunas dianteiras. Tudo para melhorar a rigidez do monobloco.

Teve mais: pneus 85/60 R 14, rodas exclusivas, discos de freio dianteiros do Tempra, para-choques redesenhados e com tomadas de ar na frente, arcos dos para-lamas destacados e acabamento todo na cor da carroceria.

No desempenho, o Uno Turbo era capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 9,2 segundos e alcançar 195 km/h de velocidade máxima, de acordo com dados da montadora italiana.

Democratização da segurança

Fiat Tipo
Tipo começou importado e depois foi feito em Betim

A Fiat também foi pioneira em alguns equipamentos de segurança em carros feitos no Brasil. Um exemplo é o Tipo, que, quando nacionalizado, em 1996, foi o primeiro carro produzido localmente equipado com airbag.

No mesmo ano, o Palio seguiu o caminho e foi o primeiro carro 1.0 nacional a oferecer airbags frontais e freios ABS – porém, no caso do hatch compacto, eles eram opcionais. De qualquer forma, eram itens de segurança vistos apenas em segmentos mais caros ou em marcas premium.

Cria de aventureiros

Fiat Palio Adventure 1999
Station-wagon Palio Adventure inaugurou o mercado de carros off-road light

Esse lance de carro de passeio com um monte de penduricalho para parecer um fora de estrada começou a ser ensaiado em 1995, com a Fiorino Trekking. A configuração da picape tinha pneus de uso misto, visual diferenciado e suspensão elevada.

Mas a receita que deu sucesso e foi imitada por muitas concorrentes foi a linha Adventure. Ela nasceu em 1999, com a Palio Weekend, e depois se propagou por outros modelos da linha: Strada, a minivan Idea e até a multivan Doblò tiveram seus crachás off-road.

As mudanças para as versões Adventure seguiam um padrão. Mecanicamente, pneus de uso misto, amortecedores reforçados, suspensão elevada em até 3 cm e maior vão livre do solo.

Esteticamente, era aquela proposta de visual jipeiro aspiracional. Faróis de neblina e de longo alcance, molduras plásticas escuras para dar e vender nos para-choques, para-lamas e laterais, rack no teto e até estribos decorativos.

Bebe todas… mesmo

Fiat Siena tetrafuel 2006
Sedã vinha com kit gás de fábrica

Em 2006, com os motores flex se expandindo entre as montadoras, a Fiat percebeu que precisava se diferenciar em meio à multidão. Dessa forma, bolou o Siena Tetrafuel, o primeiro carro do mundo produzido em série capaz de rodar com quatro tipos de combustível.

Isso mesmo. O Siena Tetrafuel tinha motor 1.4 8V Fire movido por gasolina, etanol, gás natural veicular (GNV) e… gasolina sem etanol. A versão foi replicada ainda no Grand Siena, de 2013 a 2016.

Fiat Toro

Fiat Toro Endurance
Fiat Toro sobra no segmento de picapes intermediárias

Ok, ela não foi a que criou o segmento. O mérito é da Renault Oroch. Mas foi a Toro que, a partir do lançamento, em 2016, consolidou a categoria e até hoje nada de braçadas no mercado de picapes intermediárias – também chamadas de médio-compactas.

A Fiat até exagerou no marketing e criou uma sigla para definir a Toro: SUP, de Sport Utility Pick-up. Ou seja, que combina a robustez das picapes com a dirigibilidade dos SUVs. Fato é que a picape já soma mais de 650 mil unidades fabricadas e nenhuma rival até agora ameaçou sua soberania neste segmento.