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Em sua estratégia de equilíbrio, Renault celebra valor agregado

Montadora segue com plano de conquistar volume, sem abrir mão da rentabilidade e do reposicionamento da marca francesa
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Fernando Miragaya

06 mar 2026

4 minutos de leitura

Funcionário coocando símbolo da Renault em carro

Subir a escada com a mão no corrimão pode ser interpretado como um gesto de medo, ou apenas de precaução. Para alguns críticos de plantão, a estratégia da Renault no Brasil sinalizaria o primeiro sentimento. Mas a montadora se mostra certeira e confiante de que é o segundo exemplo dessa analogia.

Quem acompanha a Automotive Business e o setor percebe há pelo menos dois anos a mudança de estratégia da Renault. Em busca de melhores margens e de uma imagem de maior valor agregado, a marca passou a investir em veículos mais rebuscados.

Começou com o Megane elétrico importado. Seguido de dois crossovers feitos no Brasil, o compacto Kardian em 2024 e, em 2025, o Boreal, este o primeiro SUV médio da marca feito localmente.

Mais recentemente, outro SUV para pontuar outro ineditismo: o Koleos vindo da Coreia do Sul como o primeiro híbrido da empresa vendido no país.

Estratégia da Renault ainda esbarra nas vendas

Isso, contudo, ainda não refletiu em uma alta significativa nas vendas. Em 2025, a Renault teve mais de 131 mil unidades negociadas, 5% a menos que em 2024. E fechou o ano com 5,17% de participação, menos 0,44 ponto percentual na mesma base de comparação.

Se formos pegar os produtos, o Kardian foi apenas o terceiro mais vendido de seu segmento, com quase 20 mil unidades. O Boreal teve 2.600 emplacamentos em três meses cheios de vendas e o Megane é um produto de nicho.

“O caminho de longo prazo para mudar algo que já tem mais de 30 anos de história no Brasil não é o mesmo de quando você lança uma marca nova. Mas está acontecendo”.

As palavras do CEO da Renault Geely América do Sul, Ariel Montenegro, resumem bem aquela analogia sobre a subida da escada com a mão no corrimão. Para a Renault, a estratégia de crescer devagar, mas de forma consistente, é mais importante.

“Nosso foco nesse momento é valor e não perder a constância, consistência, coerência de marca, para transmitir o valor para o cliente”, completa o executivo.

Clientes com maior poder aquisitivo

A Renault acredita que a estratégia, inclusive, já mostra seus primeiros frutos. A fabricante comprova isso com dados.

Por exemplo, 60% dos clientes do Boreal são novos na marca, ou seja, vieram da concorrência. No caso do Kardian, a Renault ressalta orgulhosa que 90% dos licenciamentos do SUV de entrada são para o varejo.

Além disso, a montadora diz que o poder aquisitivo dos seus clientes cresceu 50% em relação à média histórica da base de consumidores da marca no país.

“A marca Renault hoje está oferecendo um valor que nunca antes tinha oferecido, mas isso não pode significar um desespero pelo volume, porque aí perde o valor”, argumenta Ariel Montenegro.

A balança entre volume e lucro

O CEO da fabricante sequer arrisca um número mágico. Ou seja, qual quantidade de emplacamentos seria “ideal” para equilibrar escala e rentabilidade.

Ele argumenta que a empresa hoje é mais ágil para responder às demandas do mercado, além de citar a parceria com a Geely como fundamental para os planos da empresa.

“A gente encontrou um modelo de negócio bem ágil para se adaptar. A sinergia com a Geely também vai alavancar isso”, explica.

“Então, temos um equilíbrio e uma capacidade de reagir com agilidade para não desesperar frente ao volume”, completa Ariel.

Meta é minimizar ociosidade no Paraná

A parceria com a Geely é vista como fundamental para minimizar a ociosidade da fábrica de São José dos Pinhais (PR). A planta que faz Kwid, Kardian, Duster, Boreal, Master e Oroch tem capacidade instalada para 380 mil unidades/ano e hoje produz aproximadamente 60% disso em dois turnos.

As obras para as linhas de montagem da Geely já estão prontas. Os dois primeiros modelos da marca chinesa, o elétrico EX2 e o SUV híbrido EX5, começam a ser feitos em sistema CKD já em agosto.

O CEO da Renault não fala em números de aumento de volume da planta paranaense. Mas nos corredores da empresa há a expectativa de que, ao fim do ano, a unidade atinja 80% de sua capacidade.

“Claro, a ambição sempre é chegar a 100%. Mas, de novo, esse será o resultado do trabalho bem feito a médio e longo prazos. Hoje, o foco é produzir um bom nível de volume, mas a prioridade é o valor”.

Enquanto isso, a fabricante tenta subir a difícil escadaria do mercado a passos firmes. Até porque nessa estratégia da Renault ainda tem muita coisa daqui para a frente.

Tem a picape anti-Toro baseada na Niagara, o motor híbrido flex e o aumento no volume dos veículos Geely para desenvolver fornecedores locais, chegar aos 50% de nacionalização e poder exportar os modelos da chinesa para a Argentina.

Tudo isso para 2027? “Se deixe surpreender”, responde Ariel, com um sorriso de canto de boca.